Entrevistas

da Equipe do Domínio da Bola:
Alessandro Jodar, Carla Destro, Carlos Eduardo Senna, Fernando Martines, Lucas Rizzi, Rodolfo II

O título do Paulista de 1977 não concedeu ao Corinthians apenas a graça de sair da sua mais longa espera por um título. Também produziu uma geração de fãs ardorosos do time. Mais do que isso, acendeu em muitos a chama da paixão pelo futebol. Dentre eles, surgiu um apaixonado mais que fervoroso, um auto-proclamado louco, o jornalista Celso Unzelte.

Expoente de um jornalismo esportivo baseado na pesquisa histórica, no épico, Unzelte começou sua carreira de repórter na revista Placar, em 1990, onde também foi editor até o ano 2000. Também levou sua marca para a revista Quatro Rodas, para o jornal Notícias Populares, e para o site Netgol.com. Hoje é comentarista do canal ESPN Brasil, onde aparece regularmente nos programas “É Rapidinho”, “Loucos por Futebol” (onde já emprestou sua prodigiosa voz a dezenas de hinos de times, pequenos e grandes) e “Pontapé Inicial”, é professor na Faculdade Cásper Líbero e é uma das autoridades mais respeitadas quando se fala da história do futebol no Brasil, colocando seus extensos arquivos e conhecimento a serviço de diversos almanaques, edições comemorativas e até mesmo à criação do museu do Corinthians.

O Domínio da Bola falou com Unzelte extensamente, abrindo esta que será uma das nossas atrações, uma série de entrevistas com personalidades ligadas ao esporte e ao jornalismo esportivo. Tocando em todos os assuntos, desde Seleção Brasileira até quadrinhos, Celso Unzelte revela seu senso de humor, sua trajetória análoga e paralela com grandes momentos do esporte nacional, a paixão pelo futebol e pelo jornalismo, e o comprometimento com um padrão de qualidade que só pode ser descrito como… Bem, como loucura.

DB – Como surgiu a paixão pelo futebol?

Eu acho que teve uma transferência de paixão. Quando eu era pequeno, gostava de histórias em quadrinhos. Já a molecada preferia jogar bola. Meu irmão, dois anos mais novo, era muito melhor do que eu, que só ficava lendo, lendo e lendo. Esse meu irmão e um primo meu – que já faleceu – conversavam muito sobre futebol e eu não entendia nada. Eles falavam assim “Ah, você quer discutir, mas você não sabe nem a diferença entre um escanteio e um arremesso lateral”. E era verdade, não tinha nem idéia. Até que um dia caiu na minha mão o manual do Zé Carioca, que eu gostava por causa dos quadrinhos, não pelo futebol.

DB – Isso com quantos anos?

Com nove. No mesmo ano em que o Corinthians foi campeão, em 1977, depois de 22 anos. Por isso também que a molecada começou a falar tanto de futebol.

DB – Como começou a sua relação com o jornalismo esportivo?

A minha primeira atividade como jornalista foi na revisão da Abril,  na Placar, que era uma revista semanal e precisava de gente que fechasse de madrugada e gostasse do negócio. Eu coordenava a revisão da revista. Tinha um carinho por ela, passava a Placar na frente de qualquer outra coisa. No fechamento, o pessoal falava “Nossa, precisa revisar”. Eu dizia “Deixa comigo”. Eu despachava, fechava, gostava, tinha afinidade com o assunto. Eu fiz um curso Abril, no qual eu falava sobre a minha vida, o time que eu torcia. Aquilo caiu na mão do Carlos Maranhão, que era diretor da Playboy, mas que já tinha trabalhado na Placar, e logo chegou pro Juca Kfouri, que logo me adotou. Esse negócio de esporte me persegue um pouco. Eu tinha aulas de rádio com o Márcio Bernardes, e ele no dia da prova passava a pauta, anotava nas folhas de prova um a um a editoria dos caras. Ele olhava pra minha cara e escrevia “Esportes”. Eu nem sei mais dizer se é o esporte que não me larga ou se sou eu que não largo o esporte. Foi uma série de coincidências que acabou me encaminhando.

DB – Você já era corintiano?

Sim, porque o meu pai é corintiano doente desde 1935. Ele tem 78 anos. Então eu era por osmose.

DB – Você conhece muitos profissionais dessa área, assim como o Juca Kfouri. Ninguém nunca te convidou pra participar de uma mesa redonda, por exemplo?

Não, porque eu não sou muito factual. Nunca tive prazer em pegar um cara suado na hora que ele está saindo e perguntar “Qual a emoção dessa vitória?”. Não é isso que me encanta no futebol. Eu gosto muito do aspecto histórico, estatístico. Acho que descobri uma maneira de trabalhar com isso com um pouco mais de seriedade. O “achismo” nunca fez parte. Programas como o “É Rapidinho” sempre foram uma exceção na minha vida, e nem acho que eu seja brilhante comentando um jogo, não tenho aquele olho tático. Gosto do épico, do espetáculo, do que envolve. Eu prefiro um bom perfil de um técnico, um jogador, o que me afasta um pouco do factual.

DB – Como surgiu a oportunidade de virar professor?

Na Cásper Líbero. Eu nunca tinha dado aula de nada na minha vida. Sou filho de professora, só. Acho que até tenho uma certa didática por causa disso. O coordenador aqui é o Carlos Costa, e na época houve uma greve na Cásper Líbero, que vocês devem ter tido notícia. De um dia pra outro, demitiram professores e precisavam de reposição. Primeiramente o Carlos me convidou para dar aulas de Administração de Produtos Editoriais para o terceiro ano. Só que eu queria dar aula para o primeiro ano, de Jornalismo Básico, que é minha função hoje em dia. Foi quando eu disse sim, e eu só digo sim pra coisas que eu me sinto capaz. Comecei em 2003 e sigo até hoje e acho que vou seguir carreira acadêmica, fazer meu mestrado, porque como professor você tem mais respeito, até mais velho. Professor mais velho é visto com respeito. Na pior das hipóteses pode dar aula sentado. O jornalista mais velho é cada vez mais raro nas redações. Eu por exemplo vou fazer 40 anos em fevereiro e já não tenho mais muita esperança que me contratem como fixo. Primeiro porque paga pouco. Segundo porque eu teria que abrir mão de todas as minhas outras atividades, inclusive dar aulas e isso eu não quero. Eu brinco que se eu for comprar nas Casas Bahia meu holerite é de professor. A Cásper é o único lugar que eu tenho registro.

DB – Da mesma forma que dá pra falar sobre a paixão pelo jornalismo, a paixão pelo futebol, dá pra falar em paixão de dar aula?

Acho que já dá. Eu adoro dar aula. Tem que fazer aquilo que gosta, que faz mais fácil. Isso compromete menos as pessoas que estão dependendo de você, no caso, os alunos. Mas numa redação também. Você como jornalista, de bode, vai atrapalhar o trabalho das outras pessoas. Eu tenho sim paixão por dar aula. Me encontrei. É claro que, eventualmente, compensa mais ser jornalista. Você faz um bom trabalho freelancer, a compensação pelo tempo é financeira, mais recompensadora. Mas eu gosto igualmente das duas atividades.

DB – Você vê esse nicho (do jornalismo esportivo épico/histórico/estatístico) se expandindo?

Eu não aconselho ninguém a se especializar. Quando você se condiciona a ser jornalista esportivo, econômico, político, acaba sofrendo. Primeiro fecham-se algumas portas, perspectivas. O ideal é ter a cabeça mais aberta pra fazer qualquer tipo de jornalismo. Quanto ao nicho que está se abrindo, eu estou gratamente surpreso. Faz cinco anos que eu faço isso por conta e não passa um mês que alguém não invente alguma coisa pra fazer. Isso é muito legal e o mercado está se abrindo em alguns sentidos. Por exemplo, TV aberta e fechada. Quando eu comecei a trabalhar era absolutamente impossível você sonhar em ir para a TV aberta e eu já tinha uns 10 anos de jornalismo. Era feudo, gueto, meia dúzia de TVs. Com as TVs por assinatura, a SPORTV, ESPN Brasil, migrou uma mão de obra de imprensa escrita (o PVC era de escrita, o pessoal do SPORTV é todo mundo da escrita) e de uma faixa dos trinta aos quarenta anos ou que só agora está chegando. Mas quando eu comecei a trabalhar por conta, fechou o Netgol.com, que era o site da Traffic, eu consegui fazer uma coisa que eu sonhava, que era viver do meu artigo e viver por conta. Eu mandei e-mail pra várias pessoas e uma delas foi pro Juca Kfouri e falei “Juca, eu to na área, se derrubar é pênalti. Eu pretendo prestar serviço pra vários, você acha que é muita utopia?”. Ele disse “O mercado não está preparado pra isso”. E, de fato, não está. Por exemplo, em certas reuniões minhas com o diretor do Lance!, eu levei uma discriminação do meu arquivo falando assim “Eu queria ser um consultor fixo de vocês aí no Lance!, qualquer problema estatístico, você me paga por mês, a parte de estatística e história é comigo”. Nunca me deram bola. Quando eles querem fazer um projeto grande, do tipo “Enciclopédia do Campeonato Brasileiro”, me chamam e eu faço. Eu já percebi que no varejo a gente não consegue nada. É legal porque você imprime uma marca, vai ficando conhecido, é bacana e me orgulha particularmente uma pessoa pensar numa estatística de um clube ou do futebol e lembrar do meu nome. É um nicho importante que está se abrindo, principalmente, pela competência de alguns profissionais. O PVC é um deles, o Mauro Beting utiliza muito isso, também.

DB – Fale suas melhores e piores entrevistas.

As piores foram aquelas que eu paguei mico. Não fui preparado. Com o Dario Pereira, eu não tinha pilha. Fui entrevistar o Careca, e também não tinha. Tudo isso por falta de checar.

DB – Teve alguma que o entrevistado não colaborou?

Teve. O meu ídolo de infância era o Sócrates. A Placar vivia um momento histórico, uma edição especial chamada “Meu jogo inesquecível”. Consistia em ouvir grandes craques e produzir um texto enorme, com muitas aspas sobre o jogo. Tinha que dar detalhes, conversar com o jogador. O Sócrates estava conversando com umas pessoas sobre a final Corinthians e Palmeiras de 93. Minha pergunta não era nada factual. Esperei, e então no final, eu virei para o Sócrates e falei: “Eu não vou falar do dia a dia com você. Eu vou falar de coisas que já passaram. Não sei se você tem lido a revista…” – iria falar que a revista estava numa fase histórica, mas ele nem me deixou terminar. “Eu não lia nem quando prestava, imagine agora”, ele respondeu. Aquilo foi um balde de água fria em mim. A entrevista correu normalmente, mas ficou aquele clima. Agora, a melhor que eu fiz foi com o Pelé para a Placar em 99. Fiz com outro editor da revista, o Estevão. No final acabou rendendo mais. Era uma edição especial sobre o Pelé e além da entrevista “ping-pong”, saiu uma matéria à parte, chamada “Verdades e Mitos” que eu bolei na hora, fazendo perguntas diretas, do tipo “É verdade que você treinou no São Paulo, no Corinthians e no Palmeiras e não foi aprovado?” “Não, não é verdade.”, e ele contava a história. Foram vários mitos. Saiu outra também, “O dia em que ele pensou em parar”, que ele conta que quando era bem garotinho, perdeu um pênalti numa preliminar pro Santos e resolveu ir embora de tristeza. Ele já estava com a malinha na mão e só não foi embora porque um funcionário do Santos que fazia a feira de madrugada, o encontrou e falou: “Vai lá para dentro moleque”. Se não, a vida dele poderia ser outra. Essa é uma entrevista pela qual eu tenho um certo carinho, por tudo que ela rendeu. Foi uma coisa legal.

DB – E matérias?

Tem bastante matéria legal. Eu acho que apurei menos do que deveria. Quando entrei na redação já existia essa tendência de não mandar repórter para a rua. E eu, de certa forma, já tinha um texto bom. Então logo de cara já me colocaram como editor. Por isso eu tenho muito menos matéria de rua do que deveria. Mas eu gostei muito de uma que eu fiz com o Nilton Santos. Foi um desafio. A gente tinha que fazer uma revista especial sobre o Garrincha, em 92, com um perfil dele apresentado pelo Nilton, que era seu compadre e já havia jogado com o ele. O Garrincha o via como um pai, era compadre mesmo, batizou o filho, e o Nilton fala com muito amor do Mané. Eu fui pra Brasília, fiquei duas manhãs conversando com o Nilton e saiu o depoimento. Um perfil todo em aspas, inclusive as legendas das fotos. O título também. Foi uma expressão que o Nilton Santos usava: “Ah, meu compadre Mane”. É uma matéria que eu gostei muito de fazer.

DB – Qual o seu maior sonho profissional? Se é que você ainda não o realizou.

Não. Eu tenho um sonho. Quero provar que é viável fazer uma revista de futebol nesse país. Além dos meus livros também, que são um sonho já realizado. Mas com revista, quero provar que dá para tratar o assunto com seriedade. Eu estou com um projeto de fazer uma sobre futebol antigo, histórico.

DB – Mas a Placar já não ocupa este espaço?

A Placar nunca ocupou o espaço que ela merece num país como esse. Por uma série de problemas, que eu conheço bem, já que eu e o PVC dedicamos parte da nossa vida a esse projeto. Coisa de moleque mesmo. Eu quero que a revista da minha infância sobreviva. Teve um momento em que ela sobreviveu à custa disso. À custa dos dois fecharem uma revista sozinhos, chegar domingo sete horas da manhã. Isso ajudou a Placar, mas eu acho que o fato de ela estar dentro da Abril, que não é uma empresa que pensa futebol, atrapalha muito. Esse é o sonho que eu tenho: idealizar produtos de futebol com qualidade e respeito com quem está lendo. Esse foi um privilégio. Os lugares onde eu trabalhei sempre tiveram esse respeito, inclusive a própria Placar. Uma revista feita pensando que as pessoas são pensantes. A ESPN Brasil também trabalha respeitando o público.

DB – Você acha que os jornais esportivos de hoje estão dando certo?

Estão dando certo por exclusão. Eu, por exemplo, coleciono o Lance!. Tenho desde o primeiro número, de 1997, mas por motivos profissionais. Eu guardo pra ver daqui um tempo em qual minuto alguém fez o gol, mas não pelas matérias que trás. Quando eu era garoto, eu guardava a Placar.

DB -Você não acha que esses jornais são muito sensacionalistas?

Não é um problema só de jornal ou revista. Por que esses programas de esporte são sensacionalistas? Porque sempre querem trabalhar da mão pra boca. Ninguém pensa numa linha editorial que colha frutos lá na frente pela seriedade. Quando eu estava na Placar me deram uma capa do Marcelinho num crucifixo, e só eu fui contra. Achava que aquilo não acrescentava nada, e, além disso, ofendia os cristãos, os corintianos, e o próprio Marcelinho, que é evangélico. A redação retrucou: “Ah, mas vendeu pra caramba”! Eu respondi: “Tudo bem, vendeu. Mas a gente não ta aqui para pegar .

DB – Você conhece alguma revista em outro país que poderia servir de exemplo?

Não. Não tem isso de modelo, porque cada um tem as suas características. A imprensa esportiva gosta de umas presepadas. No esporte, tem a “Sports Illustrated”, dos Estados Unidos. Eu gostaria de ver uma revista de futebol como ela, mas não sei se venderia. Aí tem um monte de análise de mercado de que no Brasil não daria certo uma revista assim.

DB – Mas esses problemas não têm a ver com tudo no jornalismo? Isso não é frustrante?

Por isso que eu falei que eu quero virar professor (Risos). Claro que é frustrante, mas não adianta a gente ter essa utopia. Isso daqui, antes de tudo, é um produto também. Nós fazemos algo que precisa ser comprado pelas pessoas. Acho que a culpa está muito mais nas pessoas.

DB – Você fez outras viagens internacionais para cobrir algum evento

Futebol não. Eu cobri muito salão de automóvel. Na Quatro Rodas, eu fiz Detroit duas vezes, Genebra e Frankfurt. Tem um circuito de salões de automóveis ao longo do ano.

DB – Como você está vendo a confirmação do Brasil para sede da Copa do mundo de 2014? Nós vimos todos os problemas de organização do Pan. Qual a sua reação como jornalista e apaixonado pelo futebol

É um sentimento contraditório. Como amante do futebol é lógico que eu queria ver uma Copa aqui. Todo mundo quer. Agora, não é prioridade pro nosso país. Ninguém em sã consciência pode defender a Copa do Mundo. Primeiro nós temos que resolver os nossos problemas básicos. E parece que vai acontecer da maneira mais sórdida possível, ou seja, pouca gente levando muito dinheiro.

DB – O monopólio da Globo no futebol prejudica o espetáculo?

Prejudica, mas é o outro lado da mesa de negociação que não se impõe.  Não está na missão da Rede Globo fazer o bem para o futebol no país. A sua missão é fazer programas da maneira mais rentável para ela. Cabe ao outro lado da mesa de negociações, ou seja, os clubes, bater na mesa e se impor. Hoje isso é impossível. Mas quando começou esse processo os clubes poderiam ter batido os pés, porque a Globo sabia que era um produto tão ou mais forte que as novelas. Hoje não. Banalizou. Futebol é só uma opção de lazer a mais e tem que se acomodar nessa situação. Faltou poder de negociação do outro lado da mesa. Todo mundo fica julgando a Globo como o grande satã mas a função dela não é fazer o futebol em horário que preste. Quem tem que pensar nisso é a turma do futebol

DB – Se a Record conseguir comprar os direitos de transmissão os horários podem mudar para beneficiar o torcedor?

Seria ótimo, mas eu não acredito que consiga. A grande questão disso tudo é quem vai levar quanto por fora. E tem outros problemas também. Às vezes a proposta da Record é até maior mas como convencer os patrocinadores, de qualquer coisa, de camisa, de clubes, de placas de publicidade, que em vez de mostrar na Globo você vai mudar pra Record. Se você anuncia no São Paulo, no Corinthians, lógico que vai preferir que isso seja visto por mais gente, pelo mesmo preço. Existe uma soma de interesses, um quebra cabeças. Não é tão simples quanto pensamos. Pagou mais leva. Não é só isso.

DB – O que você acha da administração do Ricardo Teixeira na CBF?

Ruim. Aquém do que deveria ter sido nesse tempo todo, principalmente para os clubes. Eles enxergam a seleção como um produto de exportação, cada vez menos identificada com o torcedor brasileiro. A seleção joga hoje e ninguém mais para a vida por causa disso. É uma seleção de brasileiros e não uma Seleção Brasileira.  Estamos caminhando para uma Nigéria. Nigeriano não tem time de futebol, não tem clube. Eles torcem pra seleção só na Copa do Mundo e na Copa Africana de Seleções, quando conseguem juntar os craques. A mesma coisa aqui. Nós não vimos Kaká nem Ronaldinho na Copa América. De quatro em quatro anos a seleção aparece. Os nossos meninos hoje torcem pro Real Madrid e pro Manchester United como na minha infância os meninos paranaenses torciam pro Corinthians ou pro Palmeiras. Estamos virando colônia futebolística.

DB – A seleção não devia jogar mais no Brasil?

Principalmente. Tem que jogar aqui. Mas a seleção não é mais brasileira. No meu tempo de garoto a gente discutia na escola que time tinha colocado mais jogador na seleção. Fazíamos isso com 100% da seleção. Hoje em dia não se faz mais. Agora tem gente convocada que um dia foi nossa, como o Kaká, e jogadores que nunca foram nossos, como o Afonso Alves, que jogou no Atlético Mineiro. Só o torcedor mais fanático vai se lembrar. É preciso se preparar para essa mudança de realidade. Eu não vejo os clubes fazerem absolutamente nada. Nosso campeonato brasileiro está com um nível… Reforço de time grande hoje é veterano ou garoto. Antigamente, quem se reforçava assim era o XV de Jaú

DB – Hoje em dia os clubes estão muito nivelados. Uma partida do Corinthians contra um time pequeno se tornou perigosa. Dez anos atrás ele era favorito absoluto.

É, mas tem um pouco dessa geléia geral que está ruim pra todo mundo. Isso é muito ruim para o negócio. Eu não sei como vai ser o futuro porque não estamos pensando nisso. A minha esperança é que chegue tão no fundo do poço, que dali só possa subir. Não dá! Não dá! É negocio que envolve muita grana pra ficar na mão desses caras, que são incompetentes. Eu não sei se é verdade, mas dizem que o Corinthians queria contratar um jogador do Noroeste, o Marcelo Oliveira, mas o atleta já era deles. O clube não tem nem controle dos jogadores que estão emprestados. Uma vez eu levei uma proposta de uma revista pro Corinthians e o diretor de marketing falou assim pra mim, “É bom mesmo nós termos uma porque o Esperia tem”. Um clube amador do outro lado da marginal. Eu recebo e-mail de corintiano do Japão, da Finlândia. Por quê que eles me mandam e-mail? Porque mandar pro clube não adianta. Não era o clube que devia estar canalizando isso? Vendendo produto? Foram apresentar um site pro ex-presidente do Palmeiras, Mustafá Contursi e disseram para ele que o site receberia e-mails de vários lugares do Brasil e do mundo. O Mustafá perguntou, “Quanto o Palmeiras ganha por e-mail?”. O rapaz que fez o site disse, “Não presidente, ninguém paga para mandar ou receber e-mail. Isso aqui é potencial pro senhor vender chaveiro, camisa, vender melhor seus direitos de televisão”. “Então não interessa”, o presidente disse. É assim. É na mão dessas pessoas que nós estamos. Não pode sair coisa melhor do que está saindo.

DB – Existe influência de empresário na convocação da seleção brasileira?

Sempre tem e sempre terá, enquanto eles existirem. Agora, essas convocações estão sendo muito restritivas também. Na medida em que você fala pro Dunga “Olha, convoca, mas não pode chamar o Kaká nem o Ronaldinho”, já começa se começa a abrir flancos para os interesses dos empresários. Começa a se legitimar esse tipo de coisa, o que é perigoso também. Empresário influencia em convocação sim. Só não temos como provar isso. Pelo menos uma pressão psicológica tem.

DB – O que você acha da introdução do conceito de manager no futebol brasileiro, como o Vanderlei Luxemburgo?

Eu acho que é mais uma oportunidade pros caras ganharem dinheiro em cima de cargos. O futebol não precisa de um manager, o futebol precisa de uma mentalidade geral. Se dentro dessa mentalidade estiver a figura do manager, muito bem. Mas ele não vai ser o salvador de um esquema todo podre. Tem que pensar em vários aspectos. Eu fiz um Bola da Vez na ESPN Brasil com o Rivelino e ele estava falando que no tempo dele quem decidiu se o jogo final de 1974 iria ser no Morumbi ou no Pacaembu foi o Vicente Mateus analisando a grama, pisando. O que o Vicente Mateus entendia de grama? Ele nunca jogou bola na vida. Até hoje isso acontece no futebol brasileiro. Tem muita gente decidindo coisa que não entende. Se for para evitar esse tipo de coisa eu sou a favor. Se for um cara que entenda, e o Luxemburgo tem um pouco dessa visão. Mas eu temo perder um bom técnico, que ele é, e não ganhe um bom administrador.

DB – Futebol arte ou futebol resultado?

Futebol arte. Eu sou romântico. Copa de 82 sempre, de 94 nunca.

DB – Qual é o papel do jornalismo esportivo na melhoria e na transformação do esporte?

Denúncia. Tem que botar o dedo na ferida, denunciar, falar as coisas claramente, não pode ter rabo preso com ninguém. Jornalista não tem amigo. O dia que seu amigo falhar você precisa dizer que ele falhou. É o mesmo papel do jornalista nas outras áreas. E nós temos – agora talvez menos porque envolve tanto interesse – uma certa liberdade maior pra isso. Pensam duas vezes antes de nos ameaçarem de morte (risos). Quando eu comecei a fazer jornalismo, minha tia dizia “Não faça política que você é muito combatido, vai pro esporte que você está mais tranqüilo”. Hoje em dia já não é mais tão tranqüilo, porque esporte também é caso de polícia, envolve economia, está tudo relacionado. Mas o nosso papel é não se conformar. O jornalista não pode aceitar as coisas do jeito que são. Geralmente, quem se conforma é porque está ganhando alguma coisa com isso.

DB – É preciso ter diploma para ser jornalista?

Eu sou um defensor do nosso diploma sim. Eu acho que pode se pensar na reestruturação do curso, mas você aprende muita coisa na faculdade, nem que seja por osmose, por experiências, pelo contato, pelo debate e pela discussão. Que não seja um curso superior de jornalismo que a gente conhece hoje, mas é preciso uma formação para o cara entender o mundo, qualquer que seja sua profissão. Eu sou a favor de uma formação pra trabalhar com comunicação, vamos colocar assim. Talvez não seja esse o diploma de jornalismo que existe hoje.

DB – Tem muito ex-jogador que acaba a carreira e passa a comentar. Seria necessário um diploma para fazer isso?

Não necessariamente. Eu acho que eles teriam que ter o que dizer. O que incomoda é muita gente com nome falando bobagens, e muita gente sem nome que poderia estar falando e não está. Também tem o caso daqueles com nome que falam muitas coisas legais como o Tostão, por exemplo. Se eu fosse exigir estritamente o diploma, eu estaria jogando um Tostão no lixo, o que também é um crime. O parâmetro tem que ser se o cara tem alguma coisa a dizer.

DB – Quem você acha que está fazendo um bom jornalismo?
Tem muita gente boa. Eu já citei o PVC [Paulo Vinícius Coelho], o Mauro Betting. O Juca [Kfouri] é o meu parâmetro desde sempre. Imprensa escrita é um pouco menos badalada. Não tem tanto espaço. O pessoal da Placar faz um trabalho descente, dentro das limitações que eles têm. O Serginho Xavier, que é diretor da revista, é um mágico.

DB – E o mau jornalismo?

Eu não gostaria de colocar em termos de mau jornalismo, mas digamos que seja uma proposta diferente. Tem muita gente fazendo show e vendendo como jornalismo, principalmente na TV aberta. Eu não tenho nada contra a existência desse tipo de programa, mas acho que eles induzem as pessoas a pensar que jornalismo esportivo é aquilo. Se eles assumidamente falassem “Isso é um show”, tudo bem, tem espaço pra todo mundo. Nada contra, mas não é minha praia. Acho que as coisas podem coexistir.

DB – No rádio também é possível encontrar bom jornalismo?

No rádio você tem trabalhos sérios. O pessoal da CBN procura fazer isso. Tem repórteres muito bons em rádio. O Wanderley Nogueira é um bom exemplo. Mas ele é mais que um repórter. Ele não foge da pergunta delicada, não faz média, “Com todo o respeito”, que é uma expressão que ele usa, mas ele faz a pergunta, cumpre bem o papel.

DB – O que você acha da influência da publicidade nos programas de jornalismo esportivo?

Eu acho que as coisas têm que ser separadas. Eu não sou ingênuo a ponto de achar que o programa que eu trabalho e a revista que eu fecho possam ir pra rua sem a publicidade. Mas as coisas têm que ser separadas.

DB – Mas alguns casos não estão passando dos limites?

Principalmente quando a coisa se mistura, quando pedem emprestada a voz do jornalista pra fazer publicidade. É uma nova seita. O jornalismo publicitário. Na minha cabeça as duas coisas não podem se misturar. Tudo que você fala tem a ver com credibilidade, que não tem preço. Não é o mercado que vai determinar isso. Toda revista, todo jornal, todo programa tem o patrocínio, tem quem banque, mas não precisa ser necessariamente com a minha voz. Eu estou aqui na função de jornalista. Quando eu falo, estou mexendo com a informação. Não posso misturar.

DB – O que você acha da situação do Corinthians nos últimos tempos?

Muito mal administrado, como sempre. O que vai acontecer é que de vez em quando o time reage, a torcida empolga, e faz 97 anos que a coisa é assim. O que tinha que haver não era um fora Dualib, mas fora idéias retrógradas, porque já houve antes um fora Matheus, um fora Alfredo Inácio Trindade e nada mudou. As pessoas que os substituem têm a mesma cabeça. Tem que ter uma mudança de mentalidade e eu não sou ingênuo de achar que isso vai acontecer só dentro de um clube, não vai ser uma ilha de prosperidade nessa bagunça que é o futebol brasileiro.

DB – Você acha que o São Paulo, que todo mundo diz “Ah, tem uma gestão moderna” e isso e aquilo…

Eu tenho uma opinião sobre o São Paulo. Como clube ele está muito legal, muito bem administrado. Só. Já está mais do que na hora de ele dar um salto. O São Paulo era o clube que tinha mais condições de dar esse salto, virar uma outra coisa, uma empresa. O que eu quero dizer é que o memorial do São Paulo, por exemplo, tinha que estar no guia turístico da cidade de São Paulo, porque é o berço do tricampeão mundial. Não pode ser aquele memorial de empresinha que tem lá. A Rhodia tem um memorial como aquele. O São Paulo pensa muito pequeno nesse aspecto. Tem medo de dar o grande salto. Ele parou naquele estágio de clube bem administrado. Nos novos tempos isso vai ser pouco. Tem que se tornar uma empresa desse negócio de lazer que é o futebol.

DB – Quais outros clubes brasileiros você acha que são bem administrados?

Modelo ideal não tem ninguém, mas como filosofia, guardadas as devidas proporções, tem o Figueirense. O Inter fez um bom trabalho, mas a gente precisa avaliar o fôlego dele. E só. Os outros estão todos engatinhando. Alguns têm algumas coisas notáveis O Fluminense com aquele centro de formação de valores em Xerém; o Botafogo, perto do que foi, está muito melhor com o Bebeto, mas estão todos aquém do potencial que teriam.

DB – O que você acha do presidente do Vasco, Eurico Miranda?

O Eurico só personifica tudo que os outros dirigentes são. É uma pena que tenhamos tanta gente que ainda apóia idéias e conduta de trabalho de dirigentes, não só ele, como todos os outros, porque o torcedor em geral tem interesses imediatistas. Quando o time dele está ganhando, dane-se o resto. É isso que pensa gente que apóia dirigentes como o Eurico.

DB – O que você acha do Romário?

Eu respeito muito o Romário. É um cara nível de seleção do mundo em todos os tempos. E essa polêmica dos mil gols não existe. Ele nunca falou que tinha feito mil como profissional. Ele falou que tinha contado mil e tava comemorando isso. A imprensa é que fez marola. Se você for levar pela letra fria, critério mundial, nem o Pelé fez mil, porque para da FIFA só valem os gols em jogos de campeonatos.

DB – Inclusive o Romário tem mais gols que o Pelé…

Isso. Em jogos oficiais o Romário passa o Pelé. O Severino Filho, do Piauí fez essa pesquisa. Se procurar gols do Beckenbauer e do Cruyff nos registros dos seus respectivos países, amistoso não existe. Aqui no Brasil por questões culturais nós contamos. O Romário foi mais além. Ele conta desde o infantil do Olaria quando ele tinha 13 anos. Se ele tem a condição de fazer essa contabilidade, porque não fazer? Ele nunca falou que era como profissional. Eu acho que isso foi um engano que a mídia cometeu. Uma cobrança injusta nesse sentido.

DB – A CBF não tinha que dar um jeito de proibir a saída de jogadores no meio do campeonato, adequando o calendário com o europeu, por exemplo?

Isso não se resolve só com canetada. Adequando o calendário à Europa pelo menos começa e termina o mesmo campeonato com basicamente aquele time de juniores do início. Dá tempo de você ver o cara um ano, pelo menos. E nem é garantia de nada porque na Europa abre a janela de transferências em janeiro.

DB – O que você acha da situação do futebol carioca?

Foi o primeiro a sofrer conseqüências, o primeiro a ter um time grande rebaixado. Não tem autocrítica suficiente. É muita festa. Quanto mais noção você tem da sua posição, mais fácil de melhorar.

DB – Os comentaristas esportivos não devem dizer para que time torcem?

O Cléber Machado é acusado de ser são-paulino mas é santista. O Galvão é flamenguista. Eu acho muito mais honesto assumir, mas respeito quem não fala pra quem torce.

DB – O que precisa mudar para os torcedores voltarem a encher os estádios?

Os horários, a qualidade do espetáculo, torcedor mais bem tratado. O valor dos ingressos não é alto, mas o problema é que nós ganhamos pouco. Se o torcedor tivesse garantia do lugar numerado, lugar para estacionar o carro… O custo-benefício é baixo.

DB – E sobre o Estatuto do Torcedor?

É importante como todas as leis. É difícil fazer um estatuto dos melhores mundos para quem não vive no melhor dos mundos. Deveria ter aspectos mais claros, mais fáceis.

DB – O que você pensa das torcidas organizadas?

As torcidas organizadas mesmo fazendo festas e ações beneficentes ainda devem muito por causa dos problemas que causaram.

DB – Como é trabalhar com na ESPN Brasil?

É uma média de idade alta. O PVC não é novo mas está consolidado. O Lofredo é revelação e é mais novo que a maioria. O Trajano é igual na TV e fora dela. Não vai fazer sacanagem. Tem outra cabeça, preocupado com outras questões. O Kajuru era um corpo estranho na ESPN. Ele tinha noção disso. Tem uma boa relação com o Juca Kfouri. Era como se o Kajuru fosse o Pink e o Juca o Cérebro (do desenho Pink e Cérebro). Há uma resistência natural em relação à possibilidade dos americanos ajudarem. Aqui, faz-se as coisas do mesmo jeito, porém, de forma mais independente. É uma troca consciente. Receber menos dinheiro e continuar mais independente da matriz. A relação atual com a ESPN é como a relação dele (PVC) com a Placar quando era menor. É a meta que se quer atingir. Descontração, porém sem perder a seriedade. Uma outra diferenciação. Por exemplo, o Loucos por Futebol: mesmo durante os comerciais, agimos da mesma forma que durante o programa.

DB – O que você considera imprescindível para fazer um jornalismo esportivo de qualidade?

Pensar em termos de jornalismo e aplicar no esporte. Não deixar a paixão atrapalhar outras oportunidades. Jornalismo é um compromisso com o que você sente que é a verdade. Jamais passe para frente algo que você não tem certeza se é realidade. Seja honesto consigo mesmo para que você também seja honesto com seu público. Paixão por escrever. É muito importante escrever sempre. O medo do jornalista frustrado que pensa que o jornal é só escrever. Por isso que é importante a apuração. Eu sempre digo que jornalismo é 99% transpiração e 1% inspiração. Não somos escritores, apenas escrevemos em cima de fatos que são apurados.



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