O Vilão, a Violência e o Criminoso

Um tipo de violência comedida faz parte de todo esporte. Quando auto-infligida, chamamos a ela de entrega, de raça, de comprometimento, de sacrifício. Só quem pratica esportes sabe como se pune o próprio corpo em nome do desempenho atlético.

Este mesmo tipo de violência pode ser aplicado a adversários. No futebol e em diversos outros esportes jogadas duras, porém empregadas com maturidade, competência, lealdade e consideração, servem a muitos propósitos inerentes ao jogo, como intimidar um oponente, impedir uma jogada ameaçadora, conquistar espaço e, acima de tudo, garantir a vitória. É uma das estrelas coadjuvantes no espetáculo do atletismo, figurando proeminentemente nos aspectos físicos e táticos do esporte.

Sob esta ótica, qual é o papel do “carrinho”, eterno vilão do futebol?

Vamos considerar primeiro um outro exemplo de manobra violenta, provinda de um esporte bem afastado do futebol: a luta livre.

Muitos devem estar pensando “Mas a luta livre não é um esporte. Não há competição, pois os resultados das lutas são arranjados”. Porém aqueles que acompanham sabem que a luta livre é uma competição do atleta consigo, chegando aos seus limites físicos para executar complicados golpes e manobras arriscadas sem machucar a si mesmo nem a seu companheiro de profissão. Isso não os impede de se ferirem, às vezes com gravidade, além de terem de se submeter a horas de tratamento com um quiropata toda vez que sobem ao ringue. E também, às vezes, no afã do espetáculo, num deslize, ferem o outro lutador.

Enfim, o exemplo é um dos golpes mais clássicos da luta livre e também um dos mais perigosos. O pilão (ou pile-driver em inglês) é um “finisher”, um golpe destinado geralmente a desfechar categoricamente uma luta.

No entanto, a principal companhia organizadora de eventos de luta livre americana, a WWE (World Wrestling Entertainment) tem desencorajado seus atletas, a exceção dos mais experientes veteranos, de executarem a manobra. A razão é que o golpe, que consiste em um lutador segurar o outro de cabeça para baixo pela cintura, caindo de joelhos ou sentado, simulando bater com a cabeça do adversário no chão, é o motivo mais freqüente para os maiores e mais graves acidentes do esporte. Por qualquer descuido, seja pela posição, peso, altura do oponente, pela força ou velocidade na execução, pode ocasionar sérias lesões nos músculos trapezóides ou nos ombros, concussões ou fraturas de clavícula, coluna ou crânio. Assim, sem extenso treinamento por parte de ambos os lutadores que tentarão realizar o golpe, a WWE não autoriza o feito.

Como o pilão na luta livre, o carrinho bem executado é uma demonstração de talento e uma expressão clássica da movimentação defensiva no futebol. Então por que é vilão? Por ser vítima, como o passe, o desarme simples e muitos outros fundamentos do futebol, do descaso. O treino e mesmo o ensino de habilidades fundamentais ao esporte caíram em desuso por todo o mundo. E é também por ser um fundamento abusado por jogadores não apenas despreparados, mas mal-intencionados.

Foi o caso no jogo entre o Arsenal e o Birmingham City, no qual o zagueiro Martin Taylor quebrou a perna do brasileiro naturalizado croata Eduardo da Silva, atacante do Arsenal, com um dos carrinhos mais desleais já registrados. Muitos analistas foram rápidos em pedir o expurgo do carrinho da prática futebolística. Acusam a manobra de ser excessivamente forte e violenta, uma prática “criminosa”.

Mas quem é verdadeiramente violento, o carrinho ou o jogador, que o aplica de forma desastrada ou criminosa? Quem deve ser eliminado dos campos, a manobra ou pessoas como Taylor, que não tencionam melhorar o espetáculo, mas sim incapacitar covardemente um adversário?

Retórica a parte, devemos considerar, antes de pedir o fim de uma prática defensiva que, quando aplicada com talento, precisão e lealdade, é benéfica ao esporte, se o exemplo dado pela WWE não é ideal. Se houver treino comprometido, exaustivo e intenso, o carrinho pode ser uma arma importante no repertório de qualquer defensor. Mas, enquanto não há por parte de times, dos formadores de jogadores e de todos os profissionais do futebol um comprometimento com este treinamento, não só do carrinho como de todos os fundamentos, o carrinho deve ser desencorajado. Não por árbitros de cartão na mão, pois o cartão é somente punitivo, mas por comissões técnicas e companheiros de equipe, como prevenção.

Até que isto aconteça, o carrinho continua no papel de vilão, assim como Martin Taylor, verdadeiro criminoso da história.

por Carlos Senna


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