Nas Savanas de São Paulo

Por Alessandro Jodar

No Brasil, no mundo, grande, pequena, gorda ou magra, não importa sua aparência nem nacionalidade, o fato é que a zebra futebolística sempre existiu. E em 2008 as zebras brasileiras, mais especificamente as cariocas, têm demonstrado um comportamento anômalo. Ao analisar os índices de aparições de nossas amigas listradas, salta aos olhos uma realidade impressionante: estamos diante de um raríssimo processo de migração. Migração? Sim, migração… De zebras cariocas?! Pois é… Pelo que tudo indica, a população nativa do Rio de Janeiro resolveu passar o finalzinho do verão em São Paulo.

Ainda que a zebra carioca seja um eqüino de certa raridade, sua presença no estadual em raras vezes foi tão parca como tem sido nessa Taça Guanabara. Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco são os quatro times que podem ser considerados os grandes – com todo respeito ao América, que tem uma bela história de tradição e, bem, tradição.

A fórmula de disputa do campeonato você já conhece*, e, até a sexta rodada do primeiro turno, nenhuma surpresa. A não ser o espanto de que não há nada fora do esperado. Os dois grupos são liderados justamente pelo quarteto dos grandes. No Grupo A, Flamengo e Fluminense, e no Grupo B, Botafogo e Vasco. E não há nem como questionar a superioridade e a competência destes, que têm sido impiedosos diante de qualquer possibilidade de infortúnios. A ponto de produzirem verdadeiros massacres, com goleadas por 3, 4, 5 e até 6 gols!! Espantando de vez as pobres zebras cariocas, que encontraram no menos dinâmico e mais remanso Campeonato Paulista**, um abrigo para suas já tão surradas peles alvinegras.

No entanto, essa migração em massa e súbita não é algo que deve ser comemorado. Ela tem causado prejuízos tamanhos, a ponto de ocasionar até mesmo severas mudanças climáticas. Todos sabem o que se sucede após a ocorrência de um evento inesperado: chove. E talvez seja esse incomum desequilíbrio um dos motivos para tanta água.

Pois se no Rio quem manda são os grandes, em São Paulo é melhor relembrar os conselhos de avó e apelar para os ditados populares; não se engane, “tamanho não é documento”.Enquanto o líder Flamengo goleia o tradicional América, o líder Guaratinguetá goleia o tradicional Palmeiras. A mesma coisa, só que de cabeça para baixo. Ai, essas zebras…

Talvez, a culpa seja mesmo delas, mas, se não for, então de quem é? São os grandes paulistas que estão fracos, ou os pequenos é que estão fortes? São os grandes cariocas que estão fortes, ou os pequenos é que estão fracos?

Antes de mais nada, deve-se levar em consideração que o ano acaba de começar e é até normal um começo vacilante. Em 2006, o Palmeiras começou a temporada com uma campanha espetacular, foram oito vitórias seguidas de um time no máximo razoável. A primeira derrota veio num clássico contra o São Paulo, que empurrou a carroça alviverde ladeira abaixo e foi terminar o campeonato num irrelevante terceiro lugar, sete pontos atrás do campeão tricolor. Portanto, um começo brilhante também pode não significar muita coisa, assim como um começo pífio também não é o fim do mundo.

Ano passado, na segunda rodada do Brasileirão, o Corinthians deu um verdadeiro baile no Cruzeiro que jogava em casa, 3 a 0. Os paulistas, além desse jogo, tiveram um bom começo de campeonato, de modo que os mais otimistas chegaram a falar em título, ao contrário dos mineiros, que tiveram um péssimo início, levando os pessimistas a falar em rebaixamento. No fim da temporada, a Raposa chegou a uma vaga na Libertadores, já o Timão, chegou ao fundo do poço.

Por isso é melhor não ser generalista na hora de tratar do assunto. Ainda falta muito para ocorrer tanto no Campeonato Carioca, como no Campeonato Paulista. Mas que os pequenos do Rio e os grandes de São Paulo estão dando vexame, disso não resta dúvida. No entanto, devido aos elencos dos “paulistões”, não é difícil imaginar uma reação destes no campeonato, já para os “carioquinhas”, o futuro não parece assim tão promissor. O que me faz lembrar de uma charge que vi no jornal Lance! nessa última semana. Ao lado de uma zebra carioca com cara de assustada, a marca de um carimbo vermelho gritante atestava: EM EXTINÇÂO.

* Um campeonato de dois turnos, ou seja, com duas taças a serem disputadas (no primeiro, a Taça Guanabara, no segundo, a Taça Rio). Dezesseis times dividem-se em dois grupos, do qual saem os dois primeiros colocados, que por sua vez disputam semifinais e final. A não ser que o campeão do primeiro turno vença também o segundo, é marcado uma terceira final que define, enfim, o campeão. Na prática é mais fácil.

** Campeonato de turno único em que jogam todos contra todos; classificam-se para final os quatro melhores. Após semifinais, uma final de dois jogos define o campeão.


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