A epidemia da fama.

A fama não é uma doença. A busca incessante por ela talvez seja, ou talvez mereça, no mínimo, estudos aprofundados. Porque ela traz prazeres inimagináveis e antes inacessíveis. Coloquemos como cenário o nosso país, um país cristão. Sim, porque na Índia, por exemplo, onde o hinduísmo predomina com seu sistema de castas, inexistindo busca pela mudança de classe, a fama não deve ser, pelo menos oficialmente, almejada pela grande massa.

Mas falemos da pátria amada. Estamos tendo o privilégio de presenciar o Big Brother Brasil 8, que beleza! Quer exemplo maior de busca pela fama?! Futuras capas de Playboy, coadjuvantes de novela ou do Programa do Didi sairão dali. Sensacional.
O esporte também é um meio de se chegar à fama. E aqui começa o nosso paralelo. Falarei de Adriano, o Imperador, e de Sertão, o Guerreiro.

O primeiro descobriu a fama aos 17 anos, lançado ao time principal pelo técnico Paulo César Carpegiani, na Gávea. Saiu dos juvenis para fazer gols, e começou a fazê-los logo em seu segundo jogo no time principal, datado de fevereiro de 2000. No Rio- São Paulo daquele ano seu time precisava desesperadamente da vitória sobre o tricolor do Morumbi para chegar à semifinal. Com menos de 5 minutos o garoto fez um gol. Depois, deu passe para mais três. Uma vitória por 5-2 coroou a estréia do menino Adriano.

Luis Fernando Gomes , colunista do Lance! soltou uma frase interessante sobre esse episódio. Disse ele que em 45 minutos de carreira “profissional”, Adriano passou de promessa a herói, sendo quase um novo Zico nas páginas dos jornais e no imaginário do torcedor. O técnico Zagallo então começou a escalar o jogador com freqüência. Foi campeão estadual e marcou alguns gols na Copa João Havelange. Surpreendendo a todos, Leão o convocou para o jogo contra a Colômbia, nas Eliminatórias da Copa de 2002. Ele não foi bem. As coisas andavam acontecendo muito rápido. A torcida rubro-negra pegou no pé, seu estilo trombador não agradava os torcedores, que o apelidaram de Bonde e de Centopéia.

O Flamengo então, como um bom pai, ajudou o jogador e lhe deu toda base psicológica que ele precisava, não é? Não. Na verdade o Flamengo usou-o como moeda de troca para trazer Vampeta. O presidente Edmundo dos Santos Silva o mandou para a Internazionale e Reinaldo para o PSG, donos dos direitos do Velho Vamp.

Uma vida longe de seus familiares, de seu pai Almir, a quem tinha como exemplo de vida, de homem, a quem tentava se espelhar. Não se adaptou. Foi então repassado para a Fiorentina e Parma, clubes com pressão um pouco menor. Conseguiu render e voltou para Milão. Virou o Imperador. Foi o grande responsável pelo título da Copa América de 2004. Ganhou também a Copa das Confederações em 2005.

Mas sua vida começara a perder sentido com a morte do pai Almir, em 3 de agosto de 2004. Sua relação com a namorada Daniele desmoronou, e não resistiu nem ao nascimento do filho. O ainda garoto viu sua vida em uma montanha russa. Dos bailes funk na Vila Cruzeiro, virou o Imperador de Milão. Tinha direito a muito dinheiro, carro, luxo, fama. Após perder sua base emocional Adriano se apegou às noitadas, às mulheres e às bebidas. Eleito duas vezes o pior jogador da Itália pelos torcedores, seu Império acabou. Em 2007 espera voltar a apresentar o bom futebol, voltar a ser ídolo e finalmente agarrar a 9 da seleção, que está vaga.

O nosso outro personagem é menos badalado: Valdemir dos Santos Pereira, de 33 anos, nascido em Cruz das Almas- BA. O lutador de boxe Sertão foi sorveteiro na infância , e vivendo com onze irmãos, o baiano cresceu com dificuldades financeiras.

Em 1992 veio para o São Paulo F.C. treinar boxe. A equipe acabou três anos depois, mas com o incentivo de Servílio de Oliveira, único brasileiro medalhista olímpico (bronze – México-68) volta para a Bahia e treina em pequenos clubes. Em 1997 passa a treinar no São Caetano, onde permaneceu até o ano passado.
Sua vida muda em 2006, quando venceu o cinturão dos penas pela Federação Internacional de Boxe. Surgiram amigos, fãs, mulheres, festas, e a fama. Em maio do mesmo ano, Sertão perde seu cinturão para um americano. As coisas começam a desaparecer. Sua revanche em 2007 é cancelada após exames constatarem que o guerreiro está infectado pela Hepatite C, contraída por contato sexual, transfusão de sangue ou uso de drogas injetáveis. O dinheiro acabou, as mulheres se foram, a fama passou.

Para Sertão o que restou foi a casa que pôde comprar para sua mãe, onde hoje ele também mora. Sua fama foi repentina e ele não soube aproveitá-la. Para Adriano, as coisas ainda podem mudar. Com apoio psicológico, com o carinho da torcida são-paulina e com a sorte de a vida lhe dar outra chance para crescer, ele voltará a brilhar.

Esta frase budista se encaixa no tema: “O homem que busca a fama, a riqueza e casos amorosos é como uma criança que lambe o mel na lâmina de uma faca… É como um tolo que carrega uma tocha contra um vento forte, corre o risco de ter o rosto e as mãos queimados”.

Temo pela fama precoce dos talentos do futebol e do esporte em geral, temo pela grande tranformação na vida de garotos que não têm estrutura psicológica para encará-la. Temo por Alexandre Pato, que já é ídolo de brasileiros e milaneses sem nem ter idade para tal. Espero que ele tenha uma família inteligente e bem estruturada, para que sobreviva à epidemia da fama.


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