Torcidas que salvam e times que se escondem atrás delas.

por Carlos Senna

O espetáculo da torcida, o calor da massa, o amor do povo. Essa é a verdadeira alma do futebol. Mas ultimamente eu tenho me perguntado se esta alma é divina ou diabólica. Dentro dos estádios, se escondem muitos males no eclipse da gestalt de fãs que gritam, riem e choram por um símbolo, uma camisa, um escudo, uma equipe de onze jogadores e a equipe de profissionais que a apóia.

Eu poderia falar dos marginais que se abrigam em baixo de bandeirões, por trás de sinalizadores e que se chamam de “torcidas organizadas”, cuja única organização geralmente resulta em desordem, violência e morte. Mas eu vou tentar me manter um pouco mais próximo da grama e dos clubes. Temos que começar a olhar um pouco mais criticamente para a incompetência que a paixão abriga, que usa as arquibancadas como desculpa e que busca no 12º jogador o bode expiatório para o bem e para o mal.

Há muito que o futebol deixou de ser arte para ser resultado, mas como em todas as outras coisas, é necessário buscar um meio termo. Quando o treinador Émerson Leão estava no comando do São Paulo, em 2005, os resultados que a equipe conquistava eram indiscutíveis. O que também era indiscutível, mas por que era praticamente impensável criticá-lo, eram os desmandos do técnico.

Com uma equipe praticamente formada quando Cuca ainda era técnico e que, num daqueles milagres do destino, havia simplesmente fluído e se consolidada como uma das melhores esquadras a se apresentar como mandante no Cícero Pompeu de Toledo, Leão era rei. Enquanto o fenomenal jogador de futebol de salão Falcão, o inicialmente fora de forma Luisão e o uruguaio Diego Lugano lutavam por espaço na equipe titular, a torcida aplaudia as vitórias sob a batuta do treinador famoso por sua intransigência e temperamento intragável. Leão acabou por abandonar o time do Morumbi em meio à disputa pela Taça Libertadores para ganhar uns trocados a mais no Japão e só então a venda caiu dos olhos do torcedor. Mas, se o ótimo zagueiro Lugano havia conquistado com méritos seu espaço, já era tarde para Luizão e Falcão. O artilheiro de Rubinéia (interior de São Paulo), cansado de ser deixado de lado apesar de ter recobrado a forma física, fechou um pré-contrato com um time japonês, tentando escapar da perseguição do técnico. Foi herói da conquista da Libertadores, mas desfalcou o time para o Campeonato Brasileiro e o Mundial Interclubes. Já o gênio das quadras, sem nenhuma oportunidade de expressão para mostrar seu talento dentro do gramado, abandonou o futebol e retornou ao futsal, mas não sem antes apontar Leão como grande culpado. A torcida do pentacampeão brasileiro se pergunta como as coisas teriam sido diferentes até hoje. Muricy Ramalho, um técnico que tem se mostrado muito mais competente nos últimos anos, sofreu duras críticas e cobranças da torcida que Leão nunca chegou a ouvir no Morumbi, porque não conseguiu resultados positivos 100% do tempo.

O time que conta com a segunda maior torcida do país também esconde seus muitos defeitos por trás das multidões. Quando a suspeita parceria com a MSI foi feita, a diretoria, acusada de vender o Corinthians, pediu à torcida que desse uma chance à empresa estrangeira. Assim que as contratações começaram a ser feitas e o dinheiro começou a entrar, a torcida totalmente esqueceu suas ressalvas. Muitos sabiam ou desconfiavam da origem ilegal do dinheiro, mas em nome da paixão pelo time, a torcida resolveu ignorar os fatos. O apoio incondicional rendeu frutos, com a conquista do Campeonato Brasileiro de 2005. Mas será que esta alegria, que agora está sendo disputada, compensou o que veio depois? Investigações do Ministério Público revelaram o esquema de lavagem de dinheiro da MSI e desfalques perpetrados pela diretoria, além de disputas internas entre os parceiros e dentro da própria diretoria que se estenderam para dentro de campo e, logo, o futebol do timão passou a sofrer. Um fraco desempenho da equipe em 2006 e o êxodo de craques trazidos pelo dinheiro estrangeiro acordaram o torcedor para a realidade do clube. Com o time amargando uma campanha ruim em 2007 e com chances de ser rebaixado para a série B do Campeonato Brasileiro de 2008, o time do Parque São Jorge só tem uma única coisa ao seu favor que pode salvá-lo. Apenas a um ponto do descenso, com menor número de vitórias e gols a favor do que seus competidores diretos, a grande arma do Corinthians para continuar entre a elite do futebol brasileiro é exatamente a Fiel, capaz de impulsionar o time sem brilho e de esquecer as deficiências, enfatizando o peso e o amor à camisa alvinegra.

Já na Seleção Brasileira comandada pelo técnico Dunga, podemos ver também os dois lados da influência da torcida. Nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, o Brasil tem se mostrado imbatível em casa. No entanto, nos seus dois jogos como visitante, empatou ambas as vezes, a última contra o Peru no domingo, dia 18. Diante de uma torcida adversária, os craques da amarelinha não conseguem encontrar motivação suficiente para jogar no nível que todos sabem que podem desempenhar. Aliam-se a isso alguns claros equívocos na convocação e escalação dos atletas e temos visto jogos burocráticos, moles, lentos, feios de uma seleção que já encheu os olhos do mundo.

Um sistema tático conservador e retrancado, com dois laterais que jogam exatamente como zagueiros (no jogo contra o Peru, não houve sequer uma jogada armada pelos lados do campo), um meio de campo com dois ou três volantes (sendo que Mineiro está pesado e lento e Gilberto Silva atravessa um péssimo momento, enquanto Júlio Batista e Josué esfriam suas habilidades no banco e ótimos volantes como Lucas, ex-Grêmio, nem foram chamados) e jogadores de frente temperamentais, que nem sempre mostram ao que vieram. É isso que é a Seleção de Dunga. E isso antes de falar da ausência de Rogério Ceni.

Júlio César pode ter sido estrela do jogo contra o Uruguai ontem no Morumbi, mas isso não elimina a quase-unanimidade sobre quem deveria ser o verdadeiro dono da camisa 1. O capitão são-paulino, maior ídolo do seu clube, fez mais do que por merecer uma aparição repetida embaixo das traves pela Seleção. E Dunga sabe disso. Sabe também que a única vantagem de seu time é jogar em casa, com o apoio da torcida que tão raramente vê atuarem os craques que o país produz e que são tão prontamente comerciados com o exterior. Qual não deve ter sido seu receio em atuar no Morumbi, casa de Rogério Ceni, perante uma torcida predominantemente paulistana, reconhecidamente dura nas cobranças. Talvez tenha sido por isso que o time entrou em campo com tantos ex-ídolos da torcida Tricolor. Eram três no começo do jogo, Mineiro, Kaká e Luís Fabiano. Josué entrou no segundo tempo.

E a torcida não decepcionou e a atuação estelar do goleiro titular da Seleção garantiu um maior apoio. Não foi nenhuma surpresa que a vitória surgiu do esforço individual de duas pratas da casa. Luís Fabiano marcou os dois gols, o primeiro numa jogada de sorte e talento em partes iguais. O segundo começou nos pés de Josué, que entrou imprimindo um ritmo diferente no meio de campo. Corria muito, marcava muito e, mais importante, LANÇAVA A BOLA PARA A LATERAL, coisa inédita na noite até então. E foi de uma jogada dessas que nasceu o lançamento de Maicon, recebido e desperdiçado por Gilberto, mas aproveitado pelo Fabuloso. O que foi surpresa foi o péssimo nível dos grandes nomes do time, Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Robinho (os últimos dois saíram de campo substituídos e vaiados), e o fato do ofensivo time uruguaio ter deixado a vitória escapar. E, quanto ao Peru, cuja torcida foi, segundo Dunga, o fator decisivo no empate, talvez o técnico brasileiro esteja certo, pois, ontem, em Quito, perante o frágil time do Equador, o Peru apanhou pelo placar de 5 a 1.

A torcida faz tanto pelos times que apóia, no final. É como uma mãe super-protetora, que esconde os mal-feitos do filho e vibra com suas conquistas, não importando quão mínimas ou sem mérito. O que é triste é ver estes pródigos times que desrespeitam suas torcidas, se aproveitando do amor a eles dado. Varrendo para debaixo das arquibancadas falcatruas, incompetência e descaso com o espetáculo e com aqueles que realmente financiam o esporte.


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