Terror e sangue no país campeão do mundo

por Lucas Rizzi

lazio.jpglazio.jpglazio.jpglazio.jpgUm jovem de 25 anos estava a caminho do estádio para ver o time pelo qual é fanático em ação nos gramados. Quatro amigos o acompanhavam em um carro. No meio da viagem, parados em um posto, encontraram outro automóvel, ocupado por um grupo de torcedores de uma equipe rival. Xingamentos e sopapos partem de todos os lados. Até que se deu a tragédia. Uma viatura da polícia rodoviária seguiu até a confusão. Um policial atirou. O grupo que chegou depois conseguiu escapar. O outro tentou, até perceberem que o jovem estava sangrando no banco de trás do veículo. A tentativa de socorro não evitou sua morte a caminho do hospital. Os brasileiros já estão mais do que acostumados a cenas como essa. Em dias de clássicos a barbárie das torcidas organizadas ofusca o espetáculo do futebol e amedronta a população. Mas dessa vez não foi o Brasil o palco dessa cena lamentável.

Gabriele Sandri era italiano. Morava em Roma e lá trabalhava como DJ. Seu destino nesse fatídico dia 11 de novembro de 2007 era a cidade de Milão, onde seu clube de coração, a Lazio – também conhecido pelo perigoso fanatismo de seus adeptos – enfrentaria a Internazionale, em partida válida pelo Campeonato Italiano. O outro grupo, de torcedores da Juventus, também partia da capital do país, só que seguia em direção à Parma, para assistir a velha senhora em ação contra a equipe que carrega o nome da cidade. O confronto se deu nos arredores de Arezzo, que fica na região da Toscana, mas a atitude precipitada do policial, em vez de conter um pequeno foco de confusão, fez com que um sentimento de revolta tomasse conta dos torcedores por todo o país.

Em Bérgamo, na partida entre Atalanta e Milan, assim que receberem a trágica notícia, torcedores em protesto quebraram a divisória de vidro que separa os espectadores dos jogadores e por pouco não invadiram o gramado. Os atletas de ambos os times, liderados pelo capitão da Atalanta, Cristiano Doni, ainda tentaram acalmar os ânimos do público e reiniciar a partida. Sem sucesso. O árbitro não encontrou outra saída a não ser suspender o jogo aos sete minutos do primeiro tempo. Os jogadores concordaram, e foram aplaudidos de pé nas arquibancadas, por ambos os lados. Mas não parou por aí. Fora do estádio, de ânimo exaltado, os torcedores entraram em conflito com policiais.

Já em Roma, a comoção pela morte de Sandri foi mais surpreendente. Fanáticos adeptos de Lazio e Roma, que ostentam uma das maiores rivalidades do futebol mundial, se uniram contra a polícia. Não precisa nem dizer que nem um dos dois times conseguiu jogar suas partidas. As rodadas das séries B e C, que aconteceriam nos dias 17 e 18 de novembro também foram adiadas como uma forma de luto. A primeira divisão seria interrompida pelas eliminatórias da Eurocopa.

A tragédia chocou a Itália e o mundo, mas já era anunciada há muito tempo. O país tetracampeão mundial é o foco de problemas envolvendo torcidas organizadas na Europa. Frequentemente, os ultras, como são conhecidos os mais fanáticos e igualmente perigosos torcedores, se envolvem em confusões com a polícia ou com grupos rivais. A lista de ocorrências é grande, e a mais recente é de fevereiro desse ano. Na Sicília, o clássico local entre Palermo e Catania foi transformado em palco de terror por arruaceiros que preferiram jogar bombas uns nos outros do que assistir ao jogo. Resultado: um policial, Filippo Raciti, 38 anos, morto após ser atingido no rosto por um explosivo,e mais de 100 pessoas feridas. Naquela oportunidade as partidas também foram suspensas e de lá para cá parece ser a única medida que as autoridades foram capazes de tomar.

Os ultras, aliás, vivem situações curiosas, que demonstram que seu poder transcende os alambrados das arquibancadas. Na Itália, seus líderes possuem status de celebridades. Quando Paulo Zappavigna, chefe de uma das principais facções de torcedores da Roma morreu, conseguiu levar até Francesco Totti, craque e capitão do time, conhecido mundialmente, ao seu enterro. Esse mesmo Zappavigna, elevou sua facção ao posto de mais violenta do país. Que o digam fãs ingleses do Middesbrough e Manchester United, que recentemente apanharam e foram esfaqueados no estádio Olímpico de Roma por membros dessa organização criminosa.

Claudio Lotito, quando comprou a Lazio, decidiu cortar a distribuição de 800 ingressos por jogo para a principal torcida organizada do clube. Motivo suficiente para que sua mulher fosse ameaçada e que o bando tentasse comprar o clube. Isso mesmo, comprar o clube. A oferta foi recusada, mas o poderio econômico dos ultras é absurdo. O político não fica atrás. Os dirigentes das equipes e da federação nacional de futebol são constantemente pressionados a evitar a implantação de medidas repreensivas. Além disso, a polícia é acusada de não intervir nas áreas reservadas às organizadas nos estádios.

A Itália, apesar de ser um país de primeiro mundo, tem seus lapsos de Brasil. Escândalos de passaportes falsos, doping, esquemas de armação de resultados envolvendo árbitros, dirigentes e jogadores, acompanham de perto a violência dos torcedores. Só que lá a situação é por um lado pior, por outro melhor. Pior porque grande parte dos ultras estão ligados à organizações racistas e fascistas. Aí que entra a Lazio, que tem em sua torcida uma numerosa quantidade de admiradores de Benito Mussolini. No enterro de Gabrieli Sandri, alguns deles fizeram a famosa saudação fascista, também encenada pelo meia Paolo Di Canio, contra a torcida da arquirival Roma, e após uma derrota para o Livorno.

Só que a situação é melhor do que a nossa porque apesar da ausência de medidas para combater a corrupção e os baderneiros, a punição para quem participa desses escândalos é certa. A Juventus foi rebaixada; o Catania terminou a temporada passada jogando com portões fechados; Di Canio foi punido; o policial que atirou em Sandri também será, assim como os animais que quiserem transformar as arquibancadas em campos de batalhas.

Mas medidas punitivas não bastam. Quando Filippo Raciti perdeu sua vida para um explosivo, promessas de melhoras choveram por todos os lados. Nada mudou. A morte de Sandri mostou o poder que as organizadas ainda tem. O papel das autoridades agora é evitar que esse fato inflame ainda mais o ânimo dos radicais, assim como controlar os nervos de seus policiais, para que eles evitem mortes em um confronto isolado de apenas 10 pessoas.

Algumas medidas foram anunciadas, como reformas nos estádios com capacidade superior a 7.500 pessoas. As arenas que não se adequarem, terão que receber jogos com arquibancadas vazias. As melhorias devem privilegiar o conforto e o bem-estar do torcedor. A vigilância e a segurança, não só do lado de dentro, mas nos arredores dos estádios também serão incrementadas. As torcidas consideradas violentas serão proibidas de assistir a jogos fora de casa. As leis ficarão mais severas.

Essas idéias são ótimas, mas por enquanto não passam de promessas. Promessas que já foram feitas inúmeras vezes sempre que alguém perdia a vida da mesma forma que Sandri e Filippo. O ídolo do Milan, Kaká cantou a bola. A Itália está perdendo credibilidade. Adiar rodadas e fechar os portões dos estádios não são suficientes para conter a violência. Os ultras faziam viagens à Inglaterra para aprender a fazer baderna com os hooligans. As autoridades italianas deviam fazer o mesmo, passar uns tempos em terras inglesas para aprender como combater os arruaceiros.

A Itália é tetracampeã do mundo. Tem um campeonato milionário, sonho e objetivo de qualquer jogador profissional. Mas no momento o brilho de suas conquistas está ofuscado pelos escândalos recentes e seu futebol manchado pelo sangue de seus próprios torcedores.

Imagem: globo.com


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