Show de Horrores

por Carlos Senna

Mestre de Picadeiro anuncia:
Senhoras e senhores, crianças de todas as idades: a CBF orgulhosamente traz a vocês O PIOR ESPETÁCULO DA TERRA!

Vejam o incrível Campeonato Brasileiro onde o time mais fraco do São Paulo Futebol Clube nesta década é líder! Capaz de produzir, mais uma vez, diga-se de passagem, um artilheiro do campeonato de um time que será rebaixado, Josiel do Paraná Clube (e o vice-artilheiro é Acosta, do Náutico)!

Assistam ao miraculoso time do Botafogo, capaz de jogar o futebol mais bonito do país por um turno e o mais patético no outro! Observem a graça e agilidade do atacante Dodô enquanto ele dribla a mágica acusação de doping e a faz desaparecer em pleno ar! Neste número ele é acompanhado pela trupe de palhaços do STJD, famosa por seu humor baseado em trapalhadas históricas e causar confusão generalizada no palco.

A mágica de fazer aparecer fica por conta do atacante Thiago Neves, do Fluminense. Enquanto negociações surgem por todos os lados à sua volta, em outro estado, no Palmeiras, se materializa um contrato de intenção que ninguém consegue dizer de onde veio!

Mas a atração especial desta semana fica sendo o Vasco da Gama e seu técnico interino, o Baixinho Romário. O inacreditável quarto mandato de Eurico Miranda como presidente do Vasco é tão diferente dos que o precederam que só poderia mesmo ser um ato de circo. Um homem que foi tão aclamado no clube mesmo quando era apenas vice-presidente, em 1997 e 1998, que fez uma parceria com um parceiro sério, o Bank of America, e trouxe U$150 milhões para o clube, hoje parece muito mais preocupado com o seu show particular. Desmandos irracionais, suspeitas de eleições fraudulentas e coercitivas, alegações absurdas como a de que ele é “dono da Federação” carioca e acúmulo de dívidas (a com a Rede Globo é de supostamente R$19 milhões) e processos contra ele na justiça são apenas uma pequena parte de seu repertório. Mas depois de incomodar muita gente com o tratamento diferenciado dado a Romário já há algum tempo, esta semana parece ser a da busca por um recorde.

O jogador, que já é normalmente livre de comparecer aos treinos do time, freqüentador contumaz da noite carioca, frequentemente poupado de jogos de pouca expressão e de viajar com o time, que nunca pareceu nem meramente interessado no processo de organização técnica e tática do time, assumiu como treinador da equipe nesta última quarta-feira, no jogo do Vasco diante do América do México pela Copa Sul-Americana. Este foi o aviso de que a comédia iria começar. Romário deu entrevistas bem-humoradas, dizendo coisas como “Quem decide é o técnico” quando perguntado se iria entrar no jogo na sua função normal, de atleta. Conduziu treino com ares de especialista. Durante o jogo, gritou, esbravejou, chamou a atenção de todos, mas não mais do que da imprensa. Trouxe ao campo um time ofensivo que marcou logo no começo e provocou a alegria e vibração da torcida. Entrou jogando aos 20 minutos da segunda etapa e, do campo, promoveu ainda mais duas substituições. Mas se esqueceu de um ponto importante. Ele não jogava havia quatro meses. Sua entrada em campo não só deu ao Vasco uma cara de time de várzea, mas desarticulou o ataque, que vinha funcionando bem. O posicionamento do time ficou frouxo e confuso. E o Vasco, que precisava de dois gols para continuar na competição, comemorou a vitória, mas foi desclassificado.

Com isso, o time que segue fora da zona de classificação para a Sul-Americana de 2008 após ser forte candidato para brigar por uma das vagas para a Libertadores, fica totalmente sem expectativa de comemorar um título este ano ou uma classificação para um torneio internacional ano que vem. Este impressionante número tem de tudo: uma proposta interessante, assédio da imprensa, controvérsia, momentos de grande empolgação e emoção, tensão e termina com uma piada de proporções gigantescas. Muitos riram e riem ainda, menos o torcedor do Vasco e o apreciador da boa e velha seriedade no esporte.


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