Celso Unzelte – O Louco Por Futebol

da Equipe do Domínio da Bola:
Alessandro Jodar, Carla Destro, Carlos Eduardo Senna, Fernando Martines, Lucas Rizzi, Rodolfo II

O título do Paulista de 1977 não concedeu ao Corinthians apenas a graça de sair da sua mais longa espera por um título. Também produziu uma geração de fãs ardorosos do time. Mais do que isso, acendeu em muitos a chama da paixão pelo futebol. Dentre eles, surgiu um apaixonado mais que fervoroso, um auto-proclamado louco, o jornalista Celso Unzelte.

Expoente de um jornalismo esportivo baseado na pesquisa histórica, no épico, Unzelte começou sua carreira de repórter na revista Placar, em 1990, onde também foi editor até o ano 2000. Também levou sua marca para a revista Quatro Rodas, para o jornal Notícias Populares, e para o site Netgol.com. Hoje é comentarista do canal ESPN Brasil, onde aparece regularmente nos programas “É Rapidinho”, “Loucos por Futebol” (onde já emprestou sua prodigiosa voz a dezenas de hinos de times, pequenos e grandes) e “Pontapé Inicial”, é professor na Faculdade Cásper Líbero e é uma das autoridades mais respeitadas quando se fala da história do futebol no Brasil, colocando seus extensos arquivos e conhecimento a serviço de diversos almanaques, edições comemorativas e até mesmo à criação do museu do Corinthians.

O Domínio da Bola falou com Unzelte extensamente, abrindo esta que será uma das nossas atrações, uma série de entrevistas com personalidades ligadas ao esporte e ao jornalismo esportivo. Tocando em todos os assuntos, desde Seleção Brasileira até quadrinhos, Celso Unzelte revela seu senso de humor, sua trajetória análoga e paralela com grandes momentos do esporte nacional, a paixão pelo futebol e pelo jornalismo, e o comprometimento com um padrão de qualidade que só pode ser descrito como… Bem, como loucura.

DB – Como surgiu a paixão pelo futebol?

Eu acho que teve uma transferência de paixão. Quando eu era pequeno, gostava de histórias em quadrinhos. Já a molecada preferia jogar bola. Meu irmão, dois anos mais novo, era muito melhor do que eu, que só ficava lendo, lendo e lendo. Esse meu irmão e um primo meu – que já faleceu – conversavam muito sobre futebol e eu não entendia nada. Eles falavam assim “Ah, você quer discutir, mas você não sabe nem a diferença entre um escanteio e um arremesso lateral”. E era verdade, não tinha nem idéia. Até que um dia caiu na minha mão o manual do Zé Carioca, que eu gostava por causa dos quadrinhos, não pelo futebol.

DB – Isso com quantos anos?

Com nove. No mesmo ano em que o Corinthians foi campeão, em 1977, depois de 22 anos. Por isso também que a molecada começou a falar tanto de futebol.

DB – Como começou a sua relação com o jornalismo esportivo?

A minha primeira atividade como jornalista foi na revisão da Abril,  na Placar, que era uma revista semanal e precisava de gente que fechasse de madrugada e gostasse do negócio. Eu coordenava a revisão da revista. Tinha um carinho por ela, passava a Placar na frente de qualquer outra coisa. No fechamento, o pessoal falava “Nossa, precisa revisar”. Eu dizia “Deixa comigo”. Eu despachava, fechava, gostava, tinha afinidade com o assunto. Eu fiz um curso Abril, no qual eu falava sobre a minha vida, o time que eu torcia. Aquilo caiu na mão do Carlos Maranhão, que era diretor da Playboy, mas que já tinha trabalhado na Placar, e logo chegou pro Juca Kfouri, que logo me adotou. Esse negócio de esporte me persegue um pouco. Eu tinha aulas de rádio com o Márcio Bernardes, e ele no dia da prova passava a pauta, anotava nas folhas de prova um a um a editoria dos caras. Ele olhava pra minha cara e escrevia “Esportes”. Eu nem sei mais dizer se é o esporte que não me larga ou se sou eu que não largo o esporte. Foi uma série de coincidências que acabou me encaminhando.

DB – Você já era corintiano?

Sim, porque o meu pai é corintiano doente desde 1935. Ele tem 78 anos. Então eu era por osmose.

DB – Você conhece muitos profissionais dessa área, assim como o Juca Kfouri. Ninguém nunca te convidou pra participar de uma mesa redonda, por exemplo?

Não, porque eu não sou muito factual. Nunca tive prazer em pegar um cara suado na hora que ele está saindo e perguntar “Qual a emoção dessa vitória?”. Não é isso que me encanta no futebol. Eu gosto muito do aspecto histórico, estatístico. Acho que descobri uma maneira de trabalhar com isso com um pouco mais de seriedade. O “achismo” nunca fez parte. Programas como o “É Rapidinho” sempre foram uma exceção na minha vida, e nem acho que eu seja brilhante comentando um jogo, não tenho aquele olho tático. Gosto do épico, do espetáculo, do que envolve. Eu prefiro um bom perfil de um técnico, um jogador, o que me afasta um pouco do factual.

DB – Como surgiu a oportunidade de virar professor?

Na Cásper Líbero. Eu nunca tinha dado aula de nada na minha vida. Sou filho de professora, só. Acho que até tenho uma certa didática por causa disso. O coordenador aqui é o Carlos Costa, e na época houve uma greve na Cásper Líbero, que vocês devem ter tido notícia. De um dia pra outro, demitiram professores e precisavam de reposição. Primeiramente o Carlos me convidou para dar aulas de Administração de Produtos Editoriais para o terceiro ano. Só que eu queria dar aula para o primeiro ano, de Jornalismo Básico, que é minha função hoje em dia. Foi quando eu disse sim, e eu só digo sim pra coisas que eu me sinto capaz. Comecei em 2003 e sigo até hoje e acho que vou seguir carreira acadêmica, fazer meu mestrado, porque como professor você tem mais respeito, até mais velho. Professor mais velho é visto com respeito. Na pior das hipóteses pode dar aula sentado. O jornalista mais velho é cada vez mais raro nas redações. Eu por exemplo vou fazer 40 anos em fevereiro e já não tenho mais muita esperança que me contratem como fixo. Primeiro porque paga pouco. Segundo porque eu teria que abrir mão de todas as minhas outras atividades, inclusive dar aulas e isso eu não quero. Eu brinco que se eu for comprar nas Casas Bahia meu holerite é de professor. A Cásper é o único lugar que eu tenho registro.

DB – Da mesma forma que dá pra falar sobre a paixão pelo jornalismo, a paixão pelo futebol, dá pra falar em paixão de dar aula?

Acho que já dá. Eu adoro dar aula. Tem que fazer aquilo que gosta, que faz mais fácil. Isso compromete menos as pessoas que estão dependendo de você, no caso, os alunos. Mas numa redação também. Você como jornalista, de bode, vai atrapalhar o trabalho das outras pessoas. Eu tenho sim paixão por dar aula. Me encontrei. É claro que, eventualmente, compensa mais ser jornalista. Você faz um bom trabalho freelancer, a compensação pelo tempo é financeira, mais recompensadora. Mas eu gosto igualmente das duas atividades.

DB – Você vê esse nicho (do jornalismo esportivo épico/histórico/estatístico) se expandindo?

Eu não aconselho ninguém a se especializar. Quando você se condiciona a ser jornalista esportivo, econômico, político, acaba sofrendo. Primeiro fecham-se algumas portas, perspectivas. O ideal é ter a cabeça mais aberta pra fazer qualquer tipo de jornalismo. Quanto ao nicho que está se abrindo, eu estou gratamente surpreso. Faz cinco anos que eu faço isso por conta e não passa um mês que alguém não invente alguma coisa pra fazer. Isso é muito legal e o mercado está se abrindo em alguns sentidos. Por exemplo, TV aberta e fechada. Quando eu comecei a trabalhar era absolutamente impossível você sonhar em ir para a TV aberta e eu já tinha uns 10 anos de jornalismo. Era feudo, gueto, meia dúzia de TVs. Com as TVs por assinatura, a SPORTV, ESPN Brasil, migrou uma mão de obra de imprensa escrita (o PVC era de escrita, o pessoal do SPORTV é todo mundo da escrita) e de uma faixa dos trinta aos quarenta anos ou que só agora está chegando. Mas quando eu comecei a trabalhar por conta, fechou o Netgol.com, que era o site da Traffic, eu consegui fazer uma coisa que eu sonhava, que era viver do meu artigo e viver por conta. Eu mandei e-mail pra várias pessoas e uma delas foi pro Juca Kfouri e falei “Juca, eu to na área, se derrubar é pênalti. Eu pretendo prestar serviço pra vários, você acha que é muita utopia?”. Ele disse “O mercado não está preparado pra isso”. E, de fato, não está. Por exemplo, em certas reuniões minhas com o diretor do Lance!, eu levei uma discriminação do meu arquivo falando assim “Eu queria ser um consultor fixo de vocês aí no Lance!, qualquer problema estatístico, você me paga por mês, a parte de estatística e história é comigo”. Nunca me deram bola. Quando eles querem fazer um projeto grande, do tipo “Enciclopédia do Campeonato Brasileiro”, me chamam e eu faço. Eu já percebi que no varejo a gente não consegue nada. É legal porque você imprime uma marca, vai ficando conhecido, é bacana e me orgulha particularmente uma pessoa pensar numa estatística de um clube ou do futebol e lembrar do meu nome. É um nicho importante que está se abrindo, principalmente, pela competência de alguns profissionais. O PVC é um deles, o Mauro Beting utiliza muito isso, também.

DB – Fale suas melhores e piores entrevistas.

As piores foram aquelas que eu paguei mico. Não fui preparado. Com o Dario Pereira, eu não tinha pilha. Fui entrevistar o Careca, e também não tinha. Tudo isso por falta de checar.

DB – Teve alguma que o entrevistado não colaborou?

Teve. O meu ídolo de infância era o Sócrates. A Placar vivia um momento histórico, uma edição especial chamada “Meu jogo inesquecível”. Consistia em ouvir grandes craques e produzir um texto enorme, com muitas aspas sobre o jogo. Tinha que dar detalhes, conversar com o jogador. O Sócrates estava conversando com umas pessoas sobre a final Corinthians e Palmeiras de 93. Minha pergunta não era nada factual. Esperei, e então no final, eu virei para o Sócrates e falei: “Eu não vou falar do dia a dia com você. Eu vou falar de coisas que já passaram. Não sei se você tem lido a revista…” – iria falar que a revista estava numa fase histórica, mas ele nem me deixou terminar. “Eu não lia nem quando prestava, imagine agora”, ele respondeu. Aquilo foi um balde de água fria em mim. A entrevista correu normalmente, mas ficou aquele clima. Agora, a melhor que eu fiz foi com o Pelé para a Placar em 99. Fiz com outro editor da revista, o Estevão. No final acabou rendendo mais. Era uma edição especial sobre o Pelé e além da entrevista “ping-pong”, saiu uma matéria à parte, chamada “Verdades e Mitos” que eu bolei na hora, fazendo perguntas diretas, do tipo “É verdade que você treinou no São Paulo, no Corinthians e no Palmeiras e não foi aprovado?” “Não, não é verdade.”, e ele contava a história. Foram vários mitos. Saiu outra também, “O dia em que ele pensou em parar”, que ele conta que quando era bem garotinho, perdeu um pênalti numa preliminar pro Santos e resolveu ir embora de tristeza. Ele já estava com a malinha na mão e só não foi embora porque um funcionário do Santos que fazia a feira de madrugada, o encontrou e falou: “Vai lá para dentro moleque”. Se não, a vida dele poderia ser outra. Essa é uma entrevista pela qual eu tenho um certo carinho, por tudo que ela rendeu. Foi uma coisa legal.

DB – E matérias?

Tem bastante matéria legal. Eu acho que apurei menos do que deveria. Quando entrei na redação já existia essa tendência de não mandar repórter para a rua. E eu, de certa forma, já tinha um texto bom. Então logo de cara já me colocaram como editor. Por isso eu tenho muito menos matéria de rua do que deveria. Mas eu gostei muito de uma que eu fiz com o Nilton Santos. Foi um desafio. A gente tinha que fazer uma revista especial sobre o Garrincha, em 92, com um perfil dele apresentado pelo Nilton, que era seu compadre e já havia jogado com o ele. O Garrincha o via como um pai, era compadre mesmo, batizou o filho, e o Nilton fala com muito amor do Mané. Eu fui pra Brasília, fiquei duas manhãs conversando com o Nilton e saiu o depoimento. Um perfil todo em aspas, inclusive as legendas das fotos. O título também. Foi uma expressão que o Nilton Santos usava: “Ah, meu compadre Mane”. É uma matéria que eu gostei muito de fazer.

DB – Qual o seu maior sonho profissional? Se é que você ainda não o realizou.

Não. Eu tenho um sonho. Quero provar que é viável fazer uma revista de futebol nesse país. Além dos meus livros também, que são um sonho já realizado. Mas com revista, quero provar que dá para tratar o assunto com seriedade. Eu estou com um projeto de fazer uma sobre futebol antigo, histórico.

DB – Mas a Placar já não ocupa este espaço?

A Placar nunca ocupou o espaço que ela merece num país como esse. Por uma série de problemas, que eu conheço bem, já que eu e o PVC dedicamos parte da nossa vida a esse projeto. Coisa de moleque mesmo. Eu quero que a revista da minha infância sobreviva. Teve um momento em que ela sobreviveu à custa disso. À custa dos dois fecharem uma revista sozinhos, chegar domingo sete horas da manhã. Isso ajudou a Placar, mas eu acho que o fato de ela estar dentro da Abril, que não é uma empresa que pensa futebol, atrapalha muito. Esse é o sonho que eu tenho: idealizar produtos de futebol com qualidade e respeito com quem está lendo. Esse foi um privilégio. Os lugares onde eu trabalhei sempre tiveram esse respeito, inclusive a própria Placar. Uma revista feita pensando que as pessoas são pensantes. A ESPN Brasil também trabalha respeitando o público.

DB – Você acha que os jornais esportivos de hoje estão dando certo?

Estão dando certo por exclusão. Eu, por exemplo, coleciono o Lance!. Tenho desde o primeiro número, de 1997, mas por motivos profissionais. Eu guardo pra ver daqui um tempo em qual minuto alguém fez o gol, mas não pelas matérias que trás. Quando eu era garoto, eu guardava a Placar.

DB -Você não acha que esses jornais são muito sensacionalistas?

Não é um problema só de jornal ou revista. Por que esses programas de esporte são sensacionalistas? Porque sempre querem trabalhar da mão pra boca. Ninguém pensa numa linha editorial que colha frutos lá na frente pela seriedade. Quando eu estava na Placar me deram uma capa do Marcelinho num crucifixo, e só eu fui contra. Achava que aquilo não acrescentava nada, e, além disso, ofendia os cristãos, os corintianos, e o próprio Marcelinho, que é evangélico. A redação retrucou: “Ah, mas vendeu pra caramba”! Eu respondi: “Tudo bem, vendeu. Mas a gente não ta aqui para pegar .

DB – Você conhece alguma revista em outro país que poderia servir de exemplo?

Não. Não tem isso de modelo, porque cada um tem as suas características. A imprensa esportiva gosta de umas presepadas. No esporte, tem a “Sports Illustrated”, dos Estados Unidos. Eu gostaria de ver uma revista de futebol como ela, mas não sei se venderia. Aí tem um monte de análise de mercado de que no Brasil não daria certo uma revista assim.

DB – Mas esses problemas não têm a ver com tudo no jornalismo? Isso não é frustrante?

Por isso que eu falei que eu quero virar professor (Risos). Claro que é frustrante, mas não adianta a gente ter essa utopia. Isso daqui, antes de tudo, é um produto também. Nós fazemos algo que precisa ser comprado pelas pessoas. Acho que a culpa está muito mais nas pessoas.

Fim da primeira parte


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