Orgulho Nacional

Por Fernanda Amalfi – Fefi

O que é o que é? Tem nome de jornalista, mas não é rua, foi palco de grandes shows, mas não é casa noturna, tem muitos anos e não é a Dercy Gonçalves, possui grandes atrações alguns domingos e em outros está vazio e não é o Domingão do Faustão, está aberto à visitação e não é a Torre Eiffel, abrigou um papa e não é uma igreja? Não, não é a Estátua da Liberdade, nem o Big Ben e muito menos a Times Square ou o Central Park. Com certeza, o Maracanã tem muito mais história e já viu muitas mais lágrimas e risos brotarem das faces de seus admiradores. Não é um patrimônio histórico, mas é um patrimônio da história.

Tudo começo em 2 de agosto de 1948, quando o então presidente da república, Eurico Gaspar Dutra, investiu pesado na construção do que seria o maior estádio do mundo até então. O estádio seria erguido no coração da cidade do Rio de Janeiro, mas era considerado por muitos uma obra faraônica e sem necessidade. Com a ajuda do prefeito do Rio na época, Ângelo Mendes de Morais e o jornalista Mário Rodrigues Filho, o projeto foi para frente. O motivo? O Brasil teria o privilégio de sediar a primeira Copa do Mundo do pós-guerra e a quarta na história das copas.

Em 16 de junho de 1950, aconteceu o que muitos duvidavam. Num tempo recorde de 2 anos o Estádio Municipal, seu primeiro nome e que depois seria mudado para Estádio Jornalista Mário Filho em homenagem ao esforço do jornalista para a construção do estádio, foi inaugurado. Um jogo amistoso foi realizado entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo e Didi (bicampeão pela Seleção do Brasil em 1958 e 1962) foi quem estreou as redes do gol e as balançou pela primeira vez no estádio aos 10 min do primeiro tempo, na vitória dos paulistas por 3×1.

Assim, estava inaugurado o Estádio Municipal, popularmente conhecido como Maracanã. O apelido carinhoso dos cariocas vem de maracá (chocalho) com nã (semelhante) e é o nome de um papagaio grande conhecido no norte do país como Maracanã-guaçu. O porquê da adoção desse nome é contraditório. Uns dizem que é devido ao rio Maracanã, que cruzava a Tijuca e São Cristóvão, mas outros dizem que essa espécie de ave habitava em bandos a região que hoje é o Estádio.

Enfim, o estádio teve sua consagração só dias depois, quando sediou seu primeiro jogo oficial, às 15h do dia 24 de junho de 1950, pela Copa do Mundo, com a vitória do Brasil sobre o México por 4×0. A campanha do Brasil se manteve boa e o time comandado por Flávio Costa chegou a final. Exatamente um mês depois de sua inauguração o Maracanã estava praticamente lotado, com cerca de 173.850 pagantes gritando “Somos campeões”. Começava o jogo decisivo contra o Uruguai e o Brasil precisava somente de um empate. Milhares de pessoas viram o título voar de nossas mãos após o gol da vitória uruguaia por 2X1. As quase 200 mil vozes se calaram e a derrota é lembrada com tristeza até hoje e conhecida como “maracanaço”.

Com seus 317 metros no eixo maior, 279 no menor e 32 metros de altura viu lágrimas, tristeza, ódios, amores, brigas e muitos outros momentos de paixão pelo esporte. Teve como maior artilheiro Zico com 333 gols. A maior goleada foi em 1956, Flamengo 12 a 2 São Cristóvão pelo Campeonato Carioca e na tarde de 13 de maio de 1959 presenciou a maior vaia já escutada no estádio: as arquibancadas tremeram quando os alto-falantes anunciaram Julinho no lugar de Garrincha no jogo Brasil X Inglaterra em partida amistosa. No Campeonato Brasileiro de 1976, ocorreu um fato inédito. No jogo Fluminense e Corinthians mais de 100 ônibus saíram da capital paulista para assistir ao jogo. Especula-se que metade dos 146.043 pagantes eram torcedores do Corinthians. O maior público-visitante de uma equipe de fora da cidade do Rio de Janeiro.

Foi lá que Pelé marcou seu milésimo gol na vitória santista por 2X1 em cima do Vasco no dia 19 de novembro de 1969 e também sua despedida da seleção brasileira no jogo que o Brasil empatou por 2X2 com a Iugoslávia, em 18 de julho de 1971.

Além de grandes estrelas do futebol, também já passaram por lá grandes astros da música internacional como Frank Sinatra em 1980, Tina Turner em 1988 (show registrado no Guinness Book do ano como recorde mundial de público pagante num show de uma cantora solo. Mais de 188 mil pessoas lotaram o estádio), ex-Beatle Paul McCartney em 1991 (também registrado no Guinness Book do ano, pelo mesmo motivo do show da cantora norte-americana), Madonna em 1993, Rolling Stones em 1995 além de nomes nacionais como Sandy e Júnior, Ivete Sangalo e Xuxa. Também foi palco do Live in Rio, o Rock in Rio II e o Encontro com as Famílias, realizado durante a última visita do Papa João Paulo II pelo Brasil. Recentemente foi o local da abertura e encerramento dos XV Jogos Pan-Americanos realizados em julho deste ano.

O templo do futebol já esteve ameaçado de ser demolido para a construção de outro estádio mais moderno e quase foi condenado a nunca mais ouvir o canto dos torcedores cariocas: “Domingo – eu vou ao Maracanã – vou torcer pro time que sou fã – vou levar foguetes e bandeiras, não vai ser de brincadeira, ele vai ser campeão – não vou de cadeira numerada, eu vou de arquibancada, pra sentir mais emoção – porque meu time bota pra ferver e o nome dele são vocês que vão dizer, ooooooo – ooooooo, oooooooo, oooooooo, ooooo – Vasco (ou, Mengo, ou Nense ou Fogo – respectivamente para Flamengo, Fluminense e Botafogo)” .

Hoje, o Maracanã já não é mais o maior estádio do mundo. Foi construido para abrigar 200mil pessoas e atualmente, depois de inúmeras reformas, pode abrigar um número que gira em torno de 88 a 95 mil pessoas. Também não tem tanto conforto e modernidade quanto os estádios europeus, mas com certeza continua sendo e ainda vai ser por um longo tempo um orgulho nacional.


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