Baixando a bola

por Rafael Cabral

Passado o oba-oba – tipicamente brasileiro – montado com a performance da Seleção feminina na Copa da China, algumas verdades sobre o esporte precisam ser ditas.

Adotadas pela turba politicamente correta durante o certame, qualquer objeção às meninas seria motivo de apedrejamento público. Com a derrota para a Alemanha na final, a bola baixou. Com o tempo, a poeira também. Pois agora posso – finalmente – dizer, com todas as letras: o futebol jogado pelas mulheres – não me refiro à seleção brasileira – é péssimo. Péssimo.

“Mas as partidas sempre têm muitos gols!”, costumam exclamar os defensores. Por quê será? Para começar, porque o nível técnico das goleiras é sofrível. Acertou o chute, é gol. Boa parte dos gols de Marta, por exemplo, resultam de falhas das goleiras. A graça de uma grande jogada se perde se ela termina num frango grotesco.

A organização tática, em comparação com o requinte dos sistemas no futebol masculino, é inexistente. A marcação é frouxa, dando-se liberdade demais para quem tem um pouco mais de talento. A defesa não faz uma pressão que assuste, e por isso, carrega-se demais a bola.

Quanto à atuação da seleção brasileira, me irrita o tratamento dado à derrota. Como no newspeak de “1984” de George Orwell, em que “Guerra” significa “Paz”, a derrota brasileira virou vitória heróica na boca dos ‘poetas’ da crônica esportiva. Comemorou-se, tanto nas ruas quanto nas deprimentes mesas redondas de domingo. Não ouvi uma crítica sequer. A reação foi mais como um tapinha nas costas das meninas seguido de um “Tudo bem, vocês tentaram…”.

O modo como a seleção brasileira foi tratada na Copa do Mundo é sintomático do que as pessoas realmente pensam do futebol feminino. Ninguém gosta muito, mas também não falam mal. Esse paternalismo, que impede as críticas, impede também o progresso. Gera comodismo. Fica no ar uma sensação de, sei lá, jogo de aula de Educação Física no pré-primário, onde o resultado pouco importa. Se o futebol feminino quer ser levado a sério, que aguente as críticas.

O resultado importa, sim. Ou deveria importar, em um esporte que se supõe sério. Tudo bem, houve progresso, ainda mais sabendo das péssimas condições que as mulheres têm na prática do esporte no Brasil – as jogadoras, em sua maioria, estão longe de poderem viver só do futebol. De eliminação para a Suécia nas quartas-de-final da Copa de 2003, o Brasil passou para um vice que beirou o título, não fosse a derrota para a Alemanha no jogo final.

No jogo final, aliás, Marta, inegavelmente craque pros padrões das moças, foi uma das responsáveis diretas pela derrota. Ela jogou bem durante quase toda a competição, mas falhou miseravelmente no momento que a Seleção mais precisou dela: na cobrança de pênalti do jogo final, àquelas alturas com a Alemanha vencendo por 1 a 0.

Ela perdeu. E mesmo assim foi agraciada com o título de melhor jogadora da competição – unanimidade geral, da qual até eu faço parte. Porém, cabia uma ressalva. Um asterisco. Venho ouvindo a blasfêmia de comparações entre Marta e Pelé. Se quer ser digna de tal comparação, não pode falhar em momentos assim. Pelé não falhava.

Na próxima Copa, possivelmente sediada na Alemanha, a tendência é que o futebol apresentado melhore – até porque piorar está difícil. Assim como na Copa do Mundo da China, que foi transmitida para mais de 200 países, a cobertura da mídia será também massiva. Imagino que o palco será montado e o oba-oba será o mesmo. Os ‘poetas’ deitarão seus elogios, com os olhos marejados à sombra da volta do ‘futebol arte’. Que seja. Se o futebol apresentado continuar o mesmo, peço apenas que não me chamem para aplaudir.


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