O Conto do Souza

por Fernando Mendes

No ano de 2003, o jornalista Paulo César Vasconcellos, então comentarista da ESPN Brasil, contava aos telespectadores do canal o que ele chamou de “Conto do Souza”. Falava de um habilidoso jogador alagoano chamado Willamis que, após boa campanha em seu primeiro clube de futebol, o CSA, no ano de 2000 fora contratado pelo Botafogo de Futebol e Regatas na que seria sua primeira grande oportunidade de mostrar serviço em um clube grande

Vasconcellos contou que o jogador, de indiscutível boa técnica, não se firmou na equipe. Não havia suportado a pressão de um clube de massa e as exigências de um alto nível de futebol que são inerentes a um dos maiores times brasileiros de todos os tempos. Nomes como o de Garrincha, Nilton Santos e o Velho Lobo Zagallo haviam vestido o manto sagrado botafoguense, e Willamis parecia não se encaixar na história do time que já venerou ídolos de qualidade mais questionável, como o goleador Túlio Maravilha. No ano seguinte, deixou a equipe.

Passando pelo Libertad do Paraguai, o glorioso Guarani de Campinas, logo retornou à sua casa, o CSA. Depois disso, no ano de 2003, contratado pela Portuguesa Santista, ao lado de Dinei, o Cotonete Assassino, fez boa campanha no Paulistão daquele ano. Influenciados pelo visual espalhafatoso do colega, Willamis e outros jogadores da Lusinha naquela ocasião, decidiram aderir à moda lançada por Dinei e também descoloriram seus cabelos.

A boa campanha da Portuguesa Santista naquele ano atraiu os olhares de dirigentes de clubes maiores, como o São Paulo Futebol Clube, que ao fim do Campeonato Paulista, anunciava os reforços de Willamis Souza, um meio-campo mais conhecido pelo seu sobrenome, além de Adriano, um volante truculento que havia se destacado como um bom marcador e também o atacante Rico, que retornava ao elenco tricolor

Foi então que PCV dividiu sua teoria com o mundo: O São Paulo havia caído no “Conto do Souza”. Um jogador que havia impressionado alguns dirigentes com seu futebol insinuante, e que guardava consigo a promessa de vir a ser um grande nome do esporte, mas que não havia obtido êxito em sua primeira passagem por um clube de maior vitrine. Com sua mudança de visual, talvez tivesse despistado dirigentes desavisados que decidiram dar a ele uma nova chance – o tricolor contratara Souza para resolver os problemas que a equipe enfrentava por não encontrar um jogador que exercesse a função de armação do time, um camisa 10 genuíno, em outras palavras.

Sem desfrutar de grandes chances em seus primeiro ano no clube, o jogador fazia parte do elenco que chegou à fase semi-final da Libertadores da América sob o comando do novato Cuca. Émerson Leão, o sucessor no cargo de treinador do time, também não deu a Souza grandes oportunidades. Foi então que surgiu sua grande chance com Paulo Autuori, que assumira o clube durante a segunda fase do torneio continental.

Com atuações surpreendentes pela ala direita, Souza, vestindo a camisa 21, havia conquistado o respeito da crônica esportiva e sustentara com honras a vaga que Cicinho deixara disponível com sua convocação para a Seleção Brasileira. Souza certamente aproveitou a chance e contribuiu na campanha que terminou com o título maior do futebol sul-americano.

Ao fim do ano, o São Paulo viajava para o Japão, para a disputa do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA, título que Rogério Ceni e Mineiro garantiram para o tricolor. Desapontado por não ter atuado sequer um minuto pela equipe, Souza decidiu que seu ciclo no Morumbi havia terminado, e que deveria procurar uma nova chance em outra equipe.

Com a saída de Cicinho para o Real Madrid, Souza foi mantido no elenco e passou a ser o titular da equipe que, em 2006 foi campeã nacional com grande superioridade sobre os rivais. Souza foi eleito o melhor lateral-direito do campeonato naquela ocasião.

No final do ano de 2006, o enigmático Danilo deixara o time do São Paulo e com isso a sua camisa 10 ficava sem dono. Originalmente um meia-armador, Souza assumiu aquela camisa e passaria então a ser o encarregado de comandar o ataque da equipe em 2007.

Souza, notadamente um jogador útil e habilidoso, deixou que o sucesso subisse à sua cabeça e, pleiteando vaga no time de Dunga, se proclamou um grande jogador, coisa que nunca foi.

No jogo de ida contra o Grêmio, pelas oitavas-de-final da Libertadores da América de 2007, Souza teve em seus pés a oportunidade de abrir dois gols de vantagem sobre os gaúchos, quando recebeu a bola de frente para o arqueiro Saja, mas desperdiçou a chance tentando encobrir o goleiro, ao passo de que aquela situação claramente pedia uma jogada menos rebuscada. Não fosse o erro, que é perdoável – já que estamos falando de um ser humano como qualquer outro – Souza se justificou, numa infeliz demonstração de prepotência, insinuando que ele se trata de um jogador diferenciado e que um jogador comum faria uma jogada mais simples.

A declaração é sintomática e define bem o caso. Willamis Souza tem a boca maior do que o futebol, pior problema que pode acometer um jogador medíocre. É bom não esquecer também que jogadores medíocres também tem grandes momentos, para não cair no erro de achar que gols bonitos – como o que Souza fez contra o Paraná no Brasileirão desse ano, por exemplo – que são exceções, não sejam confundidos com a regra: um futebolista sem grande brilho.

Vamos aos fatos: a torcida tricolor não suporta mais os passes errados e jogadas pretensiosas do jogador, que insiste em vestir a máscara da soberba, por muitas vezes até se envolvendo em polêmicas desnecessárias com membros de outras agremiações. Para os são paulinos, a pior parte disso tudo: Souza é o único jogador de alguma qualidade em sua posição – de ala, é bom que se diga – já que Ilsinho foi vendido para o sedutor futebol da Europa Oriental, Maurinho foi emprestado e o equatoriano Reasco está no estaleiro. E para agravar a situação, Souza vem jogando no sacrifício, claramente lesionado, sem substituto.

Não obstante, a torcida já deu seu veredicto: Souza tem que sair. Concordo com os que pensam assim, com apenas uma ressalva. Souza pode ainda ser importante para o time, pode ainda realizar boas partidas e ajudar o tricolor na conquista do pentacampeonato nacional e, quem sabe, na agora improvável conquista da Sul-americana. Desde que ele adquira consciência de que é apenas um jogador nota 6, quem sabe com picos de 7.

Se ele aprender que sua única semelhança com Raí, grande ídolo tricolor, é a camisa 10, pode sim ser um jogador útil e desmentir Paulo César Vasconcellos, provando que o São Paulo não caiu no “Conto do Souza”. Por enquanto, fico com a teoria do PVC.


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