À espera de um desastre

por Carlos Senna

Bruxelas, 29 de Março de 1985. Finais da European Coup entre Juventus, da Itália, e Liverpool, da Inglaterra. O jogo terminou um a zero para a Juventus, com um pênalti convertido por Michel Platini. Quisera o mundo dos esportes, como um todo, que este fosse o fim da história.

Este jogo ficou marcado na história como o Desastre do Estádio de Heysel. Uma briga que começou como uma troca de objetos arremessados entre as torcidas, muito antes do início da partida, e terminou com 39 mortos e mais de 600 feridos. É considerado até hoje o episódio mais negro do futebol envolvendo os infames hooligans.

Mas a história também não poderia terminar aí. Como reação ao desastre, foi formulada a Convenção Européia sobre Violência dos Espectadores e Mal-Comportamento em Eventos Esportivos (em particular, jogos de futebol). Nela, foram propostas todas as medidas de segurança e todos os quesitos necessários para que clubes, estádios e governos pudessem oferecer um espetáculo seguro para os torcedores decentes e afastar os elementos criminosos das arquibancadas. Hoje são raros os países que não seguem estas sugestões e, na Europa, a diferença foi sentida e os efeitos foram positivos.

A mais de 7000 quilômetros dali, aqui no Brasil, as mesmas determinações foram recebidas e implementadas. Quer dizer, mais ou menos.

É indiscutível que as medidas de segurança estabelecidas pela Convenção foram acatadas. Das expressamente formuladas para deter a violência e desencorajar o mal-comportamento, não se vê uma que se possa dizer que foi ignorada. No entanto, continuamos a ver problemas de segurança dentro e fora dos estádios, nos gramados, nos vestiários e continuamos abdicando do hábito de atender a jogos por medo da violência.

A professora da Faculdade de Educação Física e do Programa de Pós-Graduação em Estudos do Lazer, Heloísa Baldy, falou muito bem sobre o assunto durante o Seminário sobre Segurança nos Estádios, organizado pelo Ministério dos Esportes e da Justiça em Brasília. Ela expôs como exemplo a experiência espanhola, que levou o país a ser reconhecido como modelo na área em 1992. O ponto determinante no sucesso da Espanha em conter a violência nos estádios foi a cooperação entre o poder público e os times. Baldy propôs, com acerto, que esta cooperação deveria ser a meta do Brasil. O seminário ocorreu em 2003.

O grande problema aqui é que as autoridades e os responsáveis todos querem simplesmente ver-se livres dos encargos e chagarem de uma vez às vias de fato, ou seja, o lucro. Mais que isso, as estruturas arcaicas do futebol brasileiro não são solo propício para o semear da responsabilidade com a vida humana. Dou um exemplo.

No jogo entre São Paulo e Internacional pelo returno do Brasileirão 2007, a situação ficou tensa. Dentro de campo, todas as faltas pareciam duras e os ânimos estavam acirrados muito além do que supõem o profissionalismo. Quando o jogador são-paulino Leandro pulou os anúncios à beira do gramado para pegar uma bola que demorava a ser reposta pelos gandulas, aparentemente agredindo um funcionário do Beira-Rio, tudo parecia pronto para explodir. É a típica situação que se alastra do campo para as arquibancadas. O técnico Abel Braga e a diretoria do Inter começaram a protestar nervosamente, até que um bate-boca entre um dos dirigentes e o quarto árbitro acabou próxima da violência. Estes mesmos diretores, cercados de seguranças, continuaram sua baderna dentro dos vestiários, desta vez confrontando membros da diretoria tricolor. Foi um comportamento infantil de todas as partes envolvidas que poderia ter custado vidas naquele dia.

E, vendo este comportamento, a ação tendenciosa da segurança dos clubes, a ausência das forças policiais, tudo ficou claro: Ninguém se importa. Muito se fala na televisão, muitos políticos se aproveitam do palanque armado sobre os corpos das vítimas, muitos jogadores e profissionais do esporte lamentam com sinceridade, muitos cidadãos se apresentam indignados, mas nada muda. Porque ninguém se compromete com a mudança.

Vivemos hoje, como vivíamos em 1985 à espera de nosso próprio Desastre de Heysel, para que só então algo seja promulgado com a real intenção de mudar a forma como realizamos o espetáculo do futebol no nosso país.

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