Um gol, um título, e a redenção de uma torcida

por Lucas Rizzi

Era uma quinta-feira, 13 de outubro de 1977. Naquele histórico dia, mais de 86 mil pessoas presentes no Morumbi, viram o lateral-direito Zé Maria alçar uma bola na grande área da adversária, Ponte Preta, em uma cobrança de falta, aos 36 do segundo tempo. Viram também Basílio ajeitar a pelota para Vaguinho, na boca do gol. Parecia estar chegando a hora da redenção da fiel torcida. Mas como já é característico na história alvinegra, o gol não saiu facilmente. Dentro da pequena área, Vaguinho arrematou. A bola explodiu no travessão e voltou para o lateral-esquerdo Wladimir, jogador que mais atuou com a camisa corintiana, que de cabeça mandou para o gol. Mas em cima da linha, o zagueiro Oscar salvou. Eis que aparece no centro da área o meia Basílio, que com a perna direita, estufou as redes do goleiro Carlos. Terminava ali o histórico tabu de 22 anos, 8 meses e 7 dias, e a maior torcida do estado voltava a gritar “É campeão“.

A campanha daquele Paulista de 77 não foi fácil. O torneio foi disputado em três turnos. Nos dois primeiros, os clubes eram divididos em quatro grupos, jogando todos contra todos. O campeão de cada um passava às semifinais. O campeão de cada turno estava garantido no terceiro, junto com seis melhores times seguintes no campeonato. No terceiro turno, os times foram divididos em dois grupos, e mais uma vez, jogaram todos contra todos. O campeão de cada um passava à grande final.

O primeiro turno (Taça Cidade de São Paulo) quem levou foi o Botafogo de Ribeirão Preto. No segundo (Taça Governador do Estado), deu Timão. No último turno, Ponte Preta, Botafogo, Palmeiras e Santos ficaram no grupo A. O clube de Campinas ganhou o direito de disputar a final após conquistar o primeiro lugar da chave com sobra (8 pontos a mais que os outros três times), o que provava a força da Macaca. No grupo B, que tinha Corinthians, São Paulo, Portuguesa e Guarani, a disputa foi mais dura, ficando as equipes com nove, oito, sete e seis pontos, respectivamente. A derradeira partida, que garantiu o Timão na final, foi uma vitória contra o rival São Paulo, por 2×1 (a quarta, em 4 jogos no campeonato).

Na grande decisão, quem ganhasse duas, das três partidas levava. A primeira quem levou foi o Timão, com gol de Palhinha, de uma maneira um tanto quanto esquisita. O meia-atacante chutou, o goleiro Carlos defendeu, a bola voltou direto na cara do jogador corintiano e morreu dentro do gol ponte-pretano. A sorte parecia estar do lado do Timão. A torcida foi confiante para o segundo jogo, e esperando ver a quebra do jejum de quase 23 anos, lotou o Morumbi. Não só lotou, como bateu o recorde de público no estádio (marca que dura até hoje, e não deve ser quebrada) do rival: 146 082 espectadores. Mas infelizmente, a Ponte levou. Venceu por 2×1 de virada e provocou a terceira partida.

Mas no jogo decisivo, não deu pro time de Campinas. Por um 1×0, gol de Basílio, o Sport Club Corinthians Paulista quebrava o maior jejum de títulos da sua história. A torcida entrou em êxtase. Invadiu o gramado e as ruas da cidade para comemorar. A festa correu de norte a sul do país inteiro. Eram os gritos e a alegria acumulados por duas décadas de silêncio, que agora saiam com toda a força dos pulmões corintianos. Em 48 jogos foram, 30 vitórias, 6 empates e 12 derrotas.

A última taça conquistada pelo Timão, havia sido em 1954, no Campeonato Paulista em comemoração ao IV centenário da cidade São Paulo. Nesse tempo, o Corinthians ganhou alguns pequenos torneios sem expressão e o Rio-São Paulo de 1966, embora dividido com Botafogo, Santos e Vasco.

Em uma galeria repleta de conquistas, incluindo o Mundial de Clubes em 2000, e o tetra brasileiro (90, 98, 99, 05), o Paulista de 77 figura entre os mais importantes títulos do alvinegro do Parque São Jorge. Além de ter sido disputado numa época em que os estaduais eram muito mais difíceis e valorizados, foi um título que recompensou a massa corintiana pela fidelidade mostrada nos anos de seca. A torcida não parava de crescer a cada temporada que o time passava em branco, e foi em 1976, um ano antes da redenção que a fiel deu uma das maiores demonstrações de amor à um clube no futebol. No jogo de volta das semifinais do Campeonato Brasileiro, levou 80 mil fanáticos corintianos ao Maracanã, contra o Fluminense, e empurrou o esforçado Corinthians para a vitória nos pênaltis contra um tricolor carioca que tinha em seu elenco gênios da bola como Rivelino e Carlos Alberto Torres. Infelizmente, o Timão não foi páreo para o Inter de Falcão na final e ficou com o vice. Mas enfim, esse assunto merece um texto à parte.

Até os dias de hoje, o título de 77 é lembrado com saudosismo pelos que viveram essa alegria e com uma certa tristeza pelos mais jovens, que não presenciaram esse momento histórico. Em 2007, o Corinthians briga pra não cair pra segunda divisão, e o clube se vê envolvido em problemas com a justiça, portanto, 30 anos depois, o torcedor tem que se refugiar nos feitos do passado, para sonhar com a superação da atual crise, rumo ao caminho das vitórias.

Aliás, para os corintianos mais fanáticos, e para todos aqueles que queiram saber detalhe por detalhe de uma das mais importantes conquistas do alvinegro, a Placar acaba de lançar uma edição especial em comemoração aos 30 anos do feito. A revista conta com toda a campanha do Corinthians, perfil dos jogadores, depoimentos de torcedores ilustres, etc. Vale a pena.

Em meio aos problemas por que passa o Timão, a fidelidade e a paixão da nação corintiana servem de exemplo para os torcedores de hoje em dia, que muitas vezes só querem saber de xingar ou varrer o gramado do Parque São Jorge. E a glória de Basílio deveria ensinar os jogadores atuais, que não precisa ser um dos melhores jogadores do seu clube, para se tornar um dos maiores da história.

Imagem: Gazetapress


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