Na alegria e na tristeza

 por Mariana Carrera

Ser técnico de futebol não é só ficar fora das quatro linhas gritando e reclamando da arbitragem. Com cobranças constantes das torcidas, os treinadores têm de convencer dentro e fora de campo. A presença deste é tão importante como a de qualquer outro elemento em uma partida de futebol e hoje, muitos técnicos não possuem uma vida longa no comando das equipes, pelo menos aqui no Brasil. Uma seqüência de jogos sem vencer pode custar o emprego do cidadão. Pressão por parte da torcida, de algumas pessoas de dentro do clube e pronto. O treinador sai do time, o substituto muda o esquema tático, dispensa alguns jogadores e contratam outros. Sem ver os frutos do que plantou, este logo também é mandado embora e muitas vezes a situação do time piora. Mas existem exceções e os resultados podem ser vistos na tabela do Campeonato Brasileiro deste ano. Dos primeiros colocados, todos permanecem com os mesmos técnicos desde o início da competição. E a situação já se repete pelo segundo ano consecutivo.

O líder São Paulo tem no comando um técnico que é respeitado e até agora teve a oportunidade de fazer um trabalho continuo – apesar de após a Libertadores, Muricy ter sido duramente contestado pela torcida, mas foi mantido no cargo. A boa campanha no São Caetano durante o Campeonato Paulista valorizou o técnico Dorival Júnior e o Cruzeiro, que procurava substituto para Paulo Autuori, contratou Dorival logo no início da temporada. Há quase um ano no comando do Palmeiras, Caio Jr. sofre a pressão de classificar o time para a copa Libertadores da América senão poderá perder seu emprego, porém nesse meio tempo, com o elenco que possui na mão, o treinador soube lidar bem com o time. Isso só para citar alguns clubes que permanecem com os técnicos durante esse Brasileirão.

Ultimamente têm coisas que só acontecem com o Botafogo. Dias depois da inesquecível derrota para o River pela Copa Sul Americana, o pedido de demissão de Cuca e a série de derrotas no Brasileirão, o imprevisível treinador está de volta. Nesses dez dias de “afastamento”, Cuca declarou que o Botafogo foi o melhor time no qual trabalhou e que um dia poderia retornar. A espera não foi longa e o treinador já se apresentou nesta segunda-feira em Itu, onde o time está concentrado e afirmou que a culpa da decaída no campeonato não foi de Mário Sérgio. Este, porém acusou Cuca de falta de ética diante da situação e disse que não saiu do time por decisão própria. Mário Sérgio mexeu no time e perdeu as três partidas no comando do Botafogo, mas vale lembrar que após o desastre no Monumental, Cuca foi xingado pela torcida. Torcida essa que o recebe de braços abertos como a única salvação do Botafogo nesse momento. A reestréia do técnico será exatamente contra o Vasco, no próximo domingo, no Maracanã. Quando chegou ao Alvinegro, seu primeiro jogo foi uma goleada por 4 a 1 sobre o Cruzmaltino, em maio de 2006. A história do retorno do técnico ao Botafogo é um símbolo do que se passa no futebol brasileiro, de 22 trocas de técnico em trinta rodadas, em vez da velha média de uma mudança por semana de campeonato. Hoje se sabe que cada técnico é parte de um time e que isso deve durar o quanto durar. No mínimo, o tempo de contrato.

O Corinthians, além de estar lutando contra o rebaixamento, não teve muita sorte com os técnicos durante o campeonato. Após a saída de Leão, ainda no Campeonato Paulista, o clube colocou Paulo César Carpegiani no comando. No dia 25 de agosto, Carpegiani também foi dispensado e o interino José Augusto, técnico das categorias de base, assumiu o time profissional. Situação também que durou pouco e depois de sete partidas com apenas duas vitórias, o treinador foi afastado do time principal. Após cogitar vários nomes para a vaga, Nelsinho Baptista assumiu o comando no Parque São Jorge. Essa é a quarta passagem de Nelsinho pelo Corinthians. Na primeira, em 1990, ele conduziu o clube ao então inédito título do Campeonato Brasileiro, em equipe tinha jogadores como Neto, Ronaldo e Ezequiel, entre outros. Nelsinho também dirigiu a equipe alvinegra entre 1992 e 1993 e voltou ao comando do time três anos depois, quando coroou seu trabalho com o título paulista de 1997. Agora, tem uma missão nada fácil pela frente e com a vitória de domingo sobre o São Paulo, Nelsinho poderá ficar conhecido como o técnico que livrou o Timão do rebaixamento no ano de 2007.

Todo esse vai e vem impossibilita qualquer treinador de conduzir um time a uma melhor situação e na maioria das vezes o problema não é na comissão técnica. Um treinador, como parte integrante do elenco, deve saber lidar com as situações, receber o apoio da diretoria e fazer tudo a seu alcance para a melhoria do futebol apresentado. Na alegria e na tristeza.


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