Clássico e superclássico

Por Agni Berti

Domingo de grandes jogos no Brasil e na Argentina. Em solo tupiniquim, o clássico que vem ganhando muita notoriedade nos últimos tempos – São Paulo e Corinthians – encheu o Morumbi. Enquanto que em terras hermanas, fora jogado aquele que certamente é um dos maiores clássicos do mundo: River Plate e Boca Juniors, no não menos lotado Monumental de Nuñez, casa do River.

Além da coincidência da data, os dois jogos apresentaram vários e significativos aspectos em comum. Tanto o Boca quanto o São Paulo jogam o fino da bola, são tidos como as principais equipes de seus países e francos candidatos aos títulos nacionais, posicionando-se no topo da tabela (o Tricolor é líder do Brasileiro e os Xeneizes são terceiros, com a derrota, no Apertura). Já River Plate e Corinthians são o oposto: jogam um futebol ruim, estão com elencos fracos e vão muito mal nos nacionais (o Timão está na zona de rebaixamento e os Gallinas ocupam apenas a sétima posição, depois da vitória).

Entretanto, como reza o dito popular “clássico é clássico e vice-e-versa”, aconteceu o, digamos assim, inesperado, levando-se em conta as atuais fases dos envolvidos. Alvinegros e rojiblancos venceram por 1 a 0 e 2 a 0, respectivamente. Foi um grande desabafo por parte dos desacreditados jogadores e técnicos dos vencedores. No caso de Passarella, técnico do River, foi a garantia de permanência no comando da equipe – especula-se que Francescolli, ou até Simeone, possam ocupar o cargo assim que o ex-corintiano perder.

A vitória dos portenhos alvirrubros foi, surpreendentemente, fácil. Eles abriram o placar com Falcao Garcia e ampliaram com Ariel Ortega, ainda no primeiro tempo, quando o Boca viu seu volante Banega ser expulso em falta infantil. O River Plate, indiscutivelmente, dominou todo o jogo, com show do estreante e novato Buonanotte, que mesmo não marcando, ofereceu muito perigo aos adversários. A impressão que fica do domínio dos Millonários é que o Boca Juniors sentiu a pressão da torcida adversária que, como de costume na Argentina, não parou de cantar um segundo sequer. Os Xeneizes, tidos como virtuais favoritos, sucumbiram à força do estádio lotado – essa é uma forma de se ganhar um clássico.

Uma outra, utilizada pelo Corinthians, é mais mística. Baseia-se em um misto de sorte e acaso, e não pensem que falo isso como são-paulino recalcado. O Tricolor dominou todo o jogo, criou várias chances e sempre teve a posse de bola, entretanto esbarrou na ineficiência dos atacantes e nas ótimas defesas do excelente arqueiro Felipe. Já o Timão defendeu-se o quanto pôde, não conseguia trabalhar a bola no meio-campo e não chegou a oferecer perigo claro à meta de Rogério Ceni, mas, em um lance típico de clássico, daqueles que o senhor Destino escolhe para decidir partidas, achou um gol de bola parada, com o zagueiro Betão. A imprevisibilidade dos clássicos derrubou o virtual campeão brasileiro.

Quer seja na imprevisibilidade, quer seja no apoio fundamental da torcida, o fato é que os clássicos são, e sempre serão, os melhores, mais emocionantes e misteriosos jogos de futebol. Especialmente na era dos pontos corridos, em que não há mais finais e o campeonato parece estar decidido. O colunista Marcelo Braga, corintiano, chegou a dizer, em tom de brincadeira, que “já está ótimo” e que o “Corinthians pode até ser rebaixado”.

Essa piada do meu colega desmistifica, inclusive, um dos pontos do duelo playoffs versus pontos corridos, ao constatar que o jogo entre o melhor e o pior (na tabela) entre os grandes equivale a uma final, vide as comemorações efusivas de corintianos e millonários após as partidas. Mas essa batalha de formas dá uma outra longa e conflituosa história.


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