O palanque e os gramados

por Rafael Cabral 

Nessa terça-feira, dois torcedores do Grêmio foram presos. Segundo a polícia, no dia 16 de setembro, após o clássico entre Grêmio e Internacional, eles surraram o colorado Fabio Indrigo Jardim. Não satisfeitos com a maioridade numérica e com os socos e pontapés, deram ainda 11 facadas no torcedor rival, que chegou a ser hospitalizado em estado gravíssimo, mas sobreviveu. A violência estava estampada na pele dos agressores – os dois tinham tatuagens que fundiam o símbolo do Grêmio com a suástica nazista.

A polícia gaúcha, que investiga a infiltração neonazista no futebol brasileiro há cerca de 5 anos, dispõe de documentos que comprovam a participação de mais 40 pessoas nesses grupos que dão o exemplo prático da quase sempre nefasta relação entre futebol e política – nas torcidas, e principalmente, nos governos.

O caso não é uma peculiaridade brasileira. O problema da mistura entre futebol, radicalismo político e violência, é mundial. Certa vez, o camaronês Eto’o, do Barcelona, quase abandonou o campo em protesto contra manifestações racistas da torcida. Torcedores da Lazio, frequentemente, dão vexame nas arquibancadas pelo mesmo motivo – Lazio de coração, Benito Mussolini ficaria orgulhoso. A idiotice – como na frase que pego emprestada de Paulo Francis – é a maior multinacional do mundo.

Em regimes totalitários, o esporte – notoriamente o futebol – é sempre usado com fins propagandísticos. Mussolini, apesar de inicialmente dar preferência a esportes que evocavam a guerra (boxe, esgrima e tiro), adaptou o futebol aos valores – ou melhor, à ausência de valores – de seu governo.

Na Copa do Mundo de 1938, essa relação ficaria evidente. Antes do jogo final, contra a Hungria, os jogadores italianos teriam recebido um telegrama de Mussolini. “Vencer ou morrer”, dizia. Venceram, claro, com um sonoro 4 a 2. E exaltando o suposto espírito nacional, lá estava o Duce depois, sorrindo ao lado dos futebolistas para aparecer na foto.

A Alemanha nazista, com os Jogos Olímpicos de 1936, buscou demonstrar a tal superioridade dos arianos com o esporte, além de legitimar e mostrar a força do Terceiro Reich para o mundo. Estava tudo arquitetado. O mérito, no entanto, venceu. O negro Jesse Owens, com suas 4 medalhas de ouro no atletismo, fez o Führer comer poeira.

Nada mais ridículo do que ditadores. Bufos por excelência, proliferam e se adaptam de forma impressionante ao clima latino-americano. Podemos nos orgulhar e bater no peito com a burrice habitual do nacionalismo: os nossos ditadores estão entre os mais tacanhos. Em 1970, o Brasil – na época sob o governo do carniceiro Emílio Garrastazu Médici – sagrou-se tricampeão do mundo na Copa do México. A ditadura, claro, não perdeu a oportunidade de se agarrar àquela seleção fantástica de Pelé e Tostão. Cada grito de gol do Brasil era propagado por aqui como um gol também do regime – a legitimação pela aclamação popular. Perna-de-pau, Garrastazu Médici se promovia fazendo umas embaixadinhas na rabeira da seleção canarinho

Na casa dos vizinhos argentinos – igualmente sob as botas militares – a Copa do Mundo foi organizada com a intenção de unir o país em torno de um ideal – a vitória argentina – e assim, legitimar a ditadura. Como em 1936.

O comunismo, notadamente a URSS, sempre usou o esporte para mostrar sua força ao mundo. Cuba vive por aí ganhando suas medalhas. Não falta gente para babar nas “realizações esportivas do regime de Fidel Castro”. Dos mortos no paredón, ninguém lembra. Mil novecentos e trinta e seis?

Mas não só de ditadores vive o populismo do futebol. Lula, democraticamente eleito, vive fazendo suas embaixadinhas para as câmeras da imprensa, lembrando Médici. Algo normal para um presidente que consegue encaixar metáforas futebolísticas até ao ler discursos sobre a queda do preço da bauxita.

Nem sempre o futebol é o ópio do povo – como no clichê da esquerda jurássica, distorcendo o igualmente jurássico Karl Marx. E nem só de manipulação política vive o fã de futebol. As arquibancadas também podem (e devem) ser um meio de expressão democrática e popular. A Alemanha, ao ganhar sua última Copa do Mundo, canalizou os esforços do processo de reunificação. A torcida do Barcelona, durante a ditadura de Francisco Franco, enchia as arquibancadas com opositores do regime, no único lugar onde eles podiam gritar e se manifestar livremente.

Um erro comum é dizer que a nossa atual situação política se deve à preferência absoluta dos brasileiros por futebol, carnaval, ou de qualquer coisa que não diga respeito à política em si. Errado. Para começo de conversa, um político só está em seu posto porque o povo – soberano – delegou suas responsabilidades. Fiquem com elas. Não as levem pros gramados.

Deixem as arquibancadas livres de politicagem e de ideologias. Política é essencialmente enfadonha. O futebol, diversão.


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