Tratado contra a nostalgia exacerbada no futebol.

Aqui quem vos escreve é alguém que cresceu e conviveu a vida toda com um nostálgico do futebol convicto: meu pai.

Para ele os jogadores do passado são todos melhores que os de hoje em dia, os ronaldinhos nunca teriam uma chance na seleção e atualmente jogador só sabe correr. Mas meu pai não está sozinho nessa. A maioria das pessoas de sua idade compartilha dessa opinião (eu mesmo já presenciei várias vezes meu pai e seus amigos em roda após o futebol, falando dos velhos e bons tempos do futebol).

E confesso que isso me incomoda um bocado. Os saudosistas adoram afirmar que Pelé fez o gol mil com 29 anos e Romário fez aos 41 anos, com vários jogos contra equipes ruins para que o baixinho fizesse gols. Bom para começo, Pelé jogou em uma época em que goleadas de 6 a 1 eram normais. Já Romário jogou na era do futebol físico, de marcação, onde 3 a 0 é goleada. E todo mundo afirma que Pelé era um exemplo de atleta, ou seja, não bebia, se concentrava adequadamente, ia regularmente aos treinamentos. Agora imaginem Romário, que não ia aos treinos, bebia, saia antes dos jogos, não se concentrava, só se metia em confusão, imaginem se ele tivesse sido um atleta exemplar como Pelé, e tivesse jogado na época das grandes goleadas.

Por favor, não entendam errado. Não estou comparando o Rei do futebol a Romário. É que os nostálgicos da bola chegam a ter raiva de Romário por ele estar marcando o gol mil. A todo o momento o comparam a Pelé, apontam fatos que desqualificam o feito. Tem uma enorme dificuldade em admitir que Romário, é sim um dos maiores jogadores do futebol brasileiro e que o fato de ele fazer mil gols é de grande admiração.

Agora vou fazer duas perguntas extremamente polêmicas, e estou com medo de ser deserdado. Porque os zagueiros das décadas de 50 e 60 deixavam Garrincha fazer o que fazia? Enquanto a “Alegria do Povo” ficava indo e voltando em cima da bola, deslocando apenas o corpo e deixando a bola intacta, os zagueiros acompanhavam todo o lance de longe. Porque não encurtavam o espaço e cercavam o jogador? Porque olhavam o jogador e não a bola? Esse drible me parecer ser tão infantil, que tenho absoluta convicção que não teria a mínima chance de dar certo duas vezes seguidas, nos dias de hoje.

Mas o que mais me intriga, é que muitas vezes eles (os nostálgicos) pegam jogadores obscuros do passado, que tiveram passagens tímidas pelo futebol, e o comparam com jogadores atuais consagrados. Daí você ouve que Zezinho foi melhor que Kaká e Ronaldinho Gaúcho não chegava nem aos pés de Bigode.

Bom, estou no momento de perdoar meu pai e os nostálgicos. Eles são atingidos, como todos somos, pelo encantamento da infância. Quando garotos, viram esses jogadores fazerem suas jogadas maravilhosas, e essa imagem épica dos craques branco-e-preto ficou colada eternamente na retina e na memória deles. Nenhum jogo num domingo a tarde qualquer, pode ser melhor que os jogos que ele ia acompanhar com o pai no estádio. Talvez eu também vire um nostálgico e fale para meu filho: “Ah, você acha que ele joga bola? Ele não limpava nem a chuteira do Alex!”.

Observações:

– Não falei que Garrincha era um mal jogador. Garrincha foi um gênio, e destruiu a Copa de 1962. Com ele e Pelé no time, o Brasil nunca perdeu.

– Tenho profundo respeito pelo conhecimento que meu pai e esses velhinhos nostálgico tem do futebol. Quem conhece mais de futebol, eu que acompanho há 12 anos, ou eles que acompanham a 50?

– Sim, o Romário é foda e titular em qualquer seleção brasileira ou mundial que se faça (me refiro ao Romário de 1994, não no de hoje).

por Fenando Martines


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