Vexame!

Não há outra palavra para descrever o ocorrido senão a seguinte: vexame! Depois de uma vitória magra no novíssimo Engenhão, o Botafogo viu sua classificação no Monumental de Nuñez escapulir de forma vexatória, desastrosa, trágica e, infelizmente, merecida. O 1×0 que o time de Cuca – agora desempregado – aplicou no time do River Plate na semana passada não foi o suficiente para segurar a classificação à próxima fase da Copa Sul-Americana.

O Vice-presidente de Futebol do time carioca, Carlos Augusto Montenegro não escondeu sua indignação e revolta com os atletas do clube que, segundo o cartola, “não têm alma, coração e brio”, coisa que, convenhamos, sobrou ao time portenho na noite da última quinta-feira.

Talvez pior que a não classificação na competição continental, foi a saída do técnico Cuca do time alvinegro. O treinador, apesar das constantes decepções no passado recente do Botafogo, vinha fazendo um grande trabalho, conseguindo fazer o time jogar o que foi considerado por muitos o melhor futebol do Campeonato Brasileiro – Dodô revivia os momentos que o credenciaram à condição de promessa, o time praticava um futebol leve, agradável e que, até o final do 1º turno do campeonato nacional, vinha dando resultados.

Valorizo o desempenho de Cuca nesse time, e estava muito clara a sua parcela de contribuição nas boas atuações que o Botafogo imprimia. O time perdeu o campeonato estadual para o Flamengo, é verdade. E é verdade também que a desclassificação na Copa do Brasil também foi dolorosa, principalmente por conta do erro da arbitragem na ocasião.

Mas a prova de que esses tropeços foram apenas meros detalhes infelizes dentro de um projeto maior, de longo prazo, que vinha sendo aplicado pela humilde administração de Bebeto de Freitas, é que a torcida, mesmo frente aos revezes, apoiou o time e deu forças para a continuidade do trabalho do Cuca.

A queda abrupta de rendimento no Brasileiro, depois de uma campanha que fez o torcedor sonhar com o título nacional de 2007, foi assimilada como natural, já que, para começo de conversa, o objetivo do time não era o topo, mas sim conseguir uma vaga na Libertadores da América – a boa campanha, verdade seja dita, foi uma grande surpresa para todos.

Apesar de todos esses percalços, a nau botafoguense não havia atingindo nenhum iceberg, e mesmo no meio da tormenta, ainda havia a esperança de um final ensolarado, de calmaria.

No entanto, ao contrário das outras derrotas que sofrera o Alvinegro, o golpe sofrido na casa de Ortega, Falcao e Belluschi não contou com sequer uma gota de honra, dignidade ou profissionalismo. A derrota da última quinta-feira foi um desastre e colocou em xeque toda a estrutura montada pelo clube carioca na última temporada. O fraco River Plate, com um atleta a menos do que o Bota, e com a necessidade de marcar três tentos para conseguir a classificação, fez o que parecia impossível.

Da falha grotesca do goleiro Max no gol de empate, à irresponsabilidade de Zé Roberto – que, com o jogo empatado, tentou dar uma espécie de coice no adversário – e ao preciosismo e displicência de Jorge Henrique e Dodô, que desperdiçaram ótimas oportunidades de liquidar o jogo, o Botafogo sucumbiu à covardia e, numa demonstração inédita de falta de gana e raça, sofreu a virada que decretou a queda do comandante Cuca, o único que não merecia, junto com a torcida, é claro, a desclassificação.

Mário Sérgio já foi escolhido para dar seqüência ao trabalho, mas algumas dúvidas aparecem no caminho: será que ele fará o trabalho com a metade da competência de seu antecessor? Lembremos que Mário Sérgio, apesar de conhecidamente um treinador inteligente, observador e que inegavelmente entende de futebol, amarga uma carreira de altos e baixos, e, é bom que se diga, lembro de mais baixos do que altos – esse foi o técnico que impediu Rogério Ceni de cobrar faltas, na ocasião em que trabalhou no time do Morumbi.

Além disso, sobreviverá o elenco às duríssimas – e merecidas – críticas feitas pelo vice de futebol, Montenegro? É notório o fato de que jogadores não respondem bem a esse tipo de comentário e, costumeiramente agem com insubordinação. Veremos qual caminho os atletas escolherão: ou a superação, para dar satisfação à sua torcida e diretoria, ou então o caminho amargo da derrota, posto que está prevista uma reformulação completa do elenco botafoguense.

Na inesquecível noite de quinta-feira, dia 27 de setembro de 2007, o maior derrotado, acredite, não foi Cuca. Na minha visão, ele teve seu trabalho devidamente reconhecido e não pode ser responsabilizado pelo ocorrido. Quem perdeu mais nessa história, foi o torcedor alvinegro, sobretudo aquele mais velho que, ao contrário desse que vos escreve, viu anos de glória absoluta do time que já teve o Mané Garrincha, Nilton Santos entre tantas outras lendas desse esporte tão adorado por nós.

Que o Fogão se recupere dessa enquanto há tempo.

por Fernando Mendes


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