Vitória da Garra sob a Sombra da Mesquinharia

Meu dia estava bom. Não fantástico, mas muito bom. Afinal, o São Paulo venceu ontem o Boca Juniors, eliminando nosso rival argentino da competição Sul-Americana, e jogando bem ainda por cima, com consagração de Aloísio, que saiu do banco para marcar e entrar pra história. Inclusive, pretendia falar um pouco sobre este confronto, que vai ganhando cada vez mais cara de clássico internacional e rivalidade ferrenha e que tem uma história rica (como o admirável São Paulo de 61 que fez 5 a 1 em plena Bombonera, escalado com Suli, De Sordi, Geraldo, Riberto, Dino, Gérsio, Célio, Paulo, Baiano, Gonçalo e Agenor).

Mas aí o meu dia melhorou um pouco mais, quando vi as fantásticas atletas da Seleção Brasileira feminina de futebol aplicarem uma sonora goleada nas auto-proclamadas favoritas da seleção norte-americana. Com o elástico placar de 4 a 0 sobreposto à dominação total das brasileiras sobre as americanas, com dribles inesquecíveis como o de Marta, aos 34 do segundo tempo, que resultou no quarto gol canarinho

É um daqueles momentos nos quais você sabe que está vendo algo muito especial, que você talvez não veja nunca mais. Marta, que já estava endiabrada o jogo inteiro, recebeu a bola, quicando, de costas para a marcadora Ellerston. Com um toque sutil na bola, feito com uma parte do pé que muito marmanjo veterano de pelada nunca nem pensou em usar, ela deu um meio-chapéu, meio-drible-da-vaca que deixou a americana e este que vos escreve atônitos. Ainda driblou a goleira adversária para fazer o gol, mas aí meu queixo já estava ralando no chão. Foi um lance de Garrincha! O gol foi mera conseqüência. Foi o momento em que o estádio deveria ter sido esvaziado e todos ali presentes forçados a pagar novamente pelo ingresso. E ainda assim, seria lucro para os pagantes, pois o que eles testemunharam foi algo para contar para os netos, da mesma forma que quem viu o gol de Pelé contra o Juventus da Rua Javari naquele 11 de Novembro de 1959 comenta até hoje.

Extasiado, aguardei os programas de esporte da tarde começarem para rever o lance quantas vezes fosse possível. Foi aí que o dia começou a mudar. Pra pior. Muito pior.

Não darei nome aos bois, pois a minha ética não permite. Mas digamos que certo comentarista esportivo, corintiano fanático, teve um dos dias mais infelizes de sua carreira, que já é um tanto quanto recheada de falácias e absurdos. Pôs-se o dito senhor a discursar sobre a inferioridade do futebol feminino como esporte. E eu vou dedicar este meu espaço a desfazer o desserviço prestado por ele ao espetáculo, ponto por ponto.

Disse que o futebol feminino nunca se igualará ao futebol masculino, pois não é profissional. Se por isso ele quis dizer que o futebol feminino nunca será contaminado pelo estrelato, assédio empresarial, as eternas trapalhadas da cartolagem e os negócios nebulosos de patrocinadores, eu até que espero que ele esteja certo. O que se viu em campo hoje foi uma coisa cada vez mais rara no futebol masculino: Um jogo feitos de corações, de irmandade, de suor, de garra e de lágrimas aglutinados em um vagalhão inconquistável, insuperável e apaixonante. Coisa esta que se viu também, mesmo que de relance, no jogo do Tricolor do Morumbi, mas que se reserva hoje em dia para times em ótimas fases em momentos de grande inspiração. A seleção feminina apresentou estas qualidades com a consistência de uma Geração de Ouro.

Foi mais longe o senhor comentarista. Disse ele que mesmo nos Estados Unidos, o esporte não pode ser considerado profissional. Ignorou neste comentário que por lá, a febre do futebol feminino ainda não passou. Que os estádios recebem maior público que um Corinthians e Palmeiras com freqüência. Que Mia Hamm, a maior jogadora americana de todos os tempos, recebia um salário de U$85 mil por mês, muito mais que muito craque daqui. Que uma multidão avassaladora de meninas ainda lota as poucas escolinhas de futebol e tem pôsteres de jogadoras em suas paredes e dão o sangue pelo esporte igualzinho aos nossos meninos em suas quadras, campinhos e ruas. Ainda quis dizer que lá as jogadoras são todas colegiais, em tom depreciativo. Primeiro, em que faixa etária está Alexandre Pato, jogador-sensação deste ano? Segundo, isto é a mais pura falácia! A Women’s United Soccer Association (WUSA, a liga americana de futebol feminino) recruta jogadoras da mesma forma que a NFL, a NBA, a MLB e a MLS (futebol americano, basquete, baseball e futebol masculino), ou seja, das divisões universitárias da NCAA (National Colegiate Athletics Association), onde há um campeonato nacional, com diversas divisões e times muito competitivos, como o da Universidade da Carolina do Norte.

Desdenhou ainda das marcadoras, não só dos Estados Unidos, mas de todas as mulheres que se propõem a jogar na defesa. Disse que elas não marcam forte o suficiente. Que o Robinho poderia até dar dribles muito melhores que o de Marta, mas que não o faz porque seria “quebrado”. E disse isso, na minha modesta opinião, como que concordando e dando seu aval a esta brutalidade. Neste momento, eu fui soterrado por uma avalanche de indignação. Com o incidente envolvendo Kerlon, do Cruzeiro, e Coelho, do Atlético, ainda fresco em nossas memórias, eu vou tirar um momento para falar sobre esta posição tão popular entre os profissionais do futebol. Criatividade não é crime. Punir a criatividade de um jogador com um castigo físico, se escondendo atrás da justificativa da “humilhação” é o verdadeiro crime. Coelho é um criminoso e os que o defendem agora são criminosos, culpados de conivência com o assassinato do futebol arte. E dizer que o jogo das mulheres é menos pegado é equivalente a cuspir em todas as lesões, fraturas e contusões sofridas por atletas de todo o mundo.

Agora que desabafei, nem sei por que decidi atacar o discurso do famoso comentarista. Só por seu conteúdo, ele já está desclassificado, atestado como ignorante e ultrapassado simplesmente pelo fato de ter proferido tantas asneiras obviamente falsas. Então por que estas óbvias inverdades continuam sendo tão facilmente propagadas e aceitas? O futebol é um campo de sonhos, mas também de muitos pesadelos.

Então, por favor, relevem e esqueçam essas pessoas que preferem ignorar a beleza do espetáculo que a Seleção Brasileira feminina nos ofereceu hoje. Guardem apenas a garra, a emoção incontida demonstrada pelas meninas do Brasil, a plasticidade dos movimentos, o calor da inigualável e histórica apresentação. E eu farei o mesmo.

Por Carlos Eduardo Senna


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