Estrela Cadente

Há alguns meses atrás, mais precisamente quando ainda era disputada a Taça Rio – segundo turno do Campeonato Carioca – criou-se um consenso entre as pessoas que trabalham ou acompanham futebol: o Botafogo era o time que jogava mais bonito no Brasil.

O clube de General Severiano conseguiu esse status quando passou a ter uma equipe altamente ofensiva, com os meias Zé Roberto e Lúcio Flávio, e os atacantes Jorge Henrique e Dodô em grande fase. Esses quatro, acompanhados pelas eficientes descidas ao ataque dos laterais Luciano Almeida e Joílson, mostravam um futebol envolvente, com toque de bola de qualidade, que costumavam terminar nas belas finalizações de Dodô: o artilheiro dos gols bonitos. Os volantes Túlio e Leandro Guerreiro equilibravam a postura ofensiva do time com uma eficiente marcação. A dupla de zaga, Alex e Juninho – esse também costumava viver de golaços de falta – junto com o irregular goleiro Júlio César completavam o sistema defensivo. Um esquadrão comando pelo técnico mais “bonzinho” do Brasil, Cuca.

Na fase de grupos da Taça Rio, o Botafogo ganhou cinco jogos (perdeu só um). Fez 19 gols e levou apenas cinco. Enquanto isso o alvinegro também avançava na Copa do Brasil e seu futebol era cada vez mais reverenciado. Favorito absoluto aos dois títulos, sua qualidade começou a ser questionada nas semifinais da Taça Rio, após se classificar para a final nos pênaltis, após um empate sofrido com o Vasco da Gama.

Uma final tranqüila contra o Cabofriense levou o Botafogo para a decisão do Carioca contra o desacreditado Flamengo. Apesar de ser um clássico, era esperada uma vitória com certa facilidade do alvinegro. Não foi o que aconteceu. Perdendo por 2×0, o Flamengo empatou. A partir daí a aura do Fogão começou a se desmanchar. No segundo jogo a história se repetiu. O Botafogo ganhava por 2×0 e permitiu o empate rubro-negro. Na decisão por pênaltis, deu Mengão.

A esperança era a Copa do Brasil. O favoritismo contra o Figueirense era inevitável, mas o time catarinense abriu boa vantagem de 2×0 no jogo de ida. Na partida de volta, o Maracanã lotou para ver o time que jogava mais bonito no Brasil massacrar o Figueira. Foi por pouco. O clube carioca ganhava por 2×0 até poucos minutos do apito final. Mas Cleiton Xavier descontou de longe. O Botafogo ainda fez o terceiro, mas não foi suficiente. Os mais fanáticos vão colocar a culpa na bandeirinha Ana Paula de Oliveira, que até hoje paga o pato pela eliminação e pela choradeira dos dirigentes botafoguenses, que conseguiram sua suspensão. Entretanto, não devem se lembrar do frangaço de Júlio César no gol do Figueirense. Não adiantava mais chorar, a fama de amarelão começava a assombrar os ares de General Severiano.

No campeonato brasileiro, disposto a apagar a má impressão causada pelas eliminações recentes, o Botafogo começou arrasador. Logo assumiu a liderança isolada, mesmo tendo um jogo a menos que os clubes na sua cola. O time que iniciou o torneio com pretensões de chegar à Libertadores passou a acreditar no título. A torcida se empolgou e ninguém parecia capaz de parar o Fogão.

Mas a máscara de imbatível começou a cair de uma vez. O fato decisivo para isso foi o exame anti-doping do artilheiro Dodô. Aliado à isso, teve a suspensão do craque do time, o meia Zé Roberto, por indisciplina. Sem seus dois melhores jogadores, o alvinegro entrou em franca decadência. Os jogadores começaram a mostrar um cada vez mais evidente desequilíbrio emocional. Sempre se preocupando demais com o árbitro e incapazes de reverter um resultado negativo. Além disso, Túlio ainda foi suspenso por 120 dias por chutar o atacante do São Paulo, Leandro. Não tardou para o Botafogo perder a liderança para o clube do Morumbi, mesmo com seu principal atacante de volta, após ser absolvido pelo STJD, mesmo com o doping comprovado.

Com o passar das rodadas, o time paulista começou a se distanciar. Enquanto isso o Botafogo não parava de cair, e agora ocupa apenas a sétima colocação. Tudo isso acontecia enquanto o desacreditado Cruzeiro, com um ataque eficientíssimo, alcançava a vice-liderança e destituía o Botafogo do cargo de perseguidor do virtual campeão, São Paulo.

Longe da briga pelo título, a conquista Sul-Americana passou a ser obrigação. O Botafogo eliminou o Corinthians e venceu o River Plate (ARG) por 1×0 no Maracanã. Entretanto, na partida de volta, o clube carioca chegou ao auge de seu declínio – com o perdão da contradição. Vencia o clube argentino por 2×1, com um jogador a mais. Dois jogadores do lado portenho haviam sido expulsos, e Zé Roberto, pelo lado brasileiro, após dar mais uma demonstração de sua instabilidade emocional ao fazer falta boba quando o alvinegro ainda estava à frente do placar. A classificação parecia certa, mas o Fogão apagou em campo e permitiu a virada. O River fez 3×2, e aos 47 da segunda etapa marcou o quarto.

No dia seguinte, o mentor da equipe, Cuca, pediu demissão. A diretoria não perdeu tempo e acertou com outro técnico: o oposto de Cuca, o retranqueiro Mário Sergio. Ninguém no clube sabia como explicar a derrota. Os jogadores passaram a considerar a vaga para a Libertadores uma questão de honra. E eles estão certos em pensar assim. O preciosismo de Dodô, que só quer fazer gols bonitos, a indisciplina de Zé Roberto e Túlio, as falhas dos goleiros, são exemplos que demonstram que a culpa da decadência do alvinegro talvez não seja toda de Cuca, embora ele tenha parte nela.

O Botafogo já mostrou claros sinais de não saber lidar com situações adversas. A partir desse fato, a perspectiva não é das melhores. Um time antes visto com encanto, agora é considerado uma farsa, como assim definiu o jornalista Juca Kfouri em seu blog.

A estrela solitária de General Severiano tem na cobiçada vaga para a Libertadores a sua última chance de brilhar. Se não alcançar esse objetivo, terminará 2007 espatifada no chão, sob a luz quase morta do que foi “o time que joga mais bonito no Brasil“.

por Lucas Rizzi


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