Onde estão nossos ídolos?

Domingo de clássicos pelo Campeonato Brasileiro. Corinthians e Palmeiras fizeram o derby mais importante da capital paulista, enquanto que Fluminense e Botafogo se degladiaram na cidade maravilhosa. O Verdão venceu por 1 a 0, já o Flu passou por 2 a 0. Até aí, tudo normal, não fosse uma certa ausência: não havia nenhum ídolo nessas duas partidas.

Não é necessário dizer o quanto esses quatro times são grandes, importantes e com uma história estonteante e vasta. Porém, o time, especialmente em clássicos, precisa de um personagem central, um jogador que não só faça a diferença, como cative a torcida, leve o cidadão ao estádio para, apenas, noventa minutos de festa, alegria e contemplação – o ídolo implica uma contemplação; idolatria mesmo. Ele não faz só gols e jogadas bonitas, ele chama a atenção toda para si e toma a responsabilidade do jogo em suas mãos.

Para ser ídolo não basta só decidir um jogo, mesmo que seja um clássico, o craque deve se identificar com a camisa, como se ela fosse sua pele, parte do corpo e da vida, além de vesti-la anos a fio, viver glórias e fracassos com o manto.

Agora responda, torcedor ou espectador de futebol, quem fez o papel de ídolo nos jogos de ontem? Ninguém! Por acaso havia alguém análogo a Sócrates, Casagrande ou Neto na escalação do Corinthians? Algum discípulo de Ademir da Guia ou Leivinha pelo Palestra? E no Rio, alguém que se aproximasse de Carlos Alberto Torres e Renato Gaúcho (que nem ficou no banco) pelo Flu? Creio que seja covardia perguntar se havia um novo Garrincha no Botafogo…

E foi com times recheados de jogadores medianos e bons que as equipes fizeram seus confrontos. Mas o que acontece com os ídolos? Simplesmente não estão mais se formando. Hoje, os boleiros saem para o exterior antes mesmo de se consolidarem no cenário nacional, antes, até, de poderem jogar no exterior – caso de Alexandre Pato que quando saiu do Inter para o Milan não tinha 18 anos completos e, pelas regras italianas, não podia atuar profissionalmente ainda. Registre-se que Pato não chegou a jogar nenhum Grenal.

O êxodo de jogadores se dá cada vez mais cedo, e a repatriação está muito cara, além dos jogadores preferirem ficar fora do Brasil. Antigamente, ainda, podia-se dizer que os craques que partiram estavam na Europa; hoje nem isso é uma certeza. Com os petrodólares, muitos brazucas vão para pólos anônimos de futebol, como Qatar, Arábia Saudita e outros países do Golfo Pérsico. Japão, China e Tigres Asiáticos também oferecem perspectivas de enriquecimento rápido, o que também leva os boleiros nacionais para esses destinos. Países do Leste Europeu, Turquia e até Israel, na verdade, andam sendo mais vantajosos que jogar nos falidos clubes brasileiros, que mal andam pagando todos os ordenados em dia.

Junto a esse problema de permanência dos melhores jogadores, vem a queda de qualidade. Apesar de o atual campeonato estar muito equilibrado, não há mais que dois times jogando o fino da bola. Tanto é que São Paulo e Cruzeiro lideram com folga e os outros se aglomeram no restante da tabela.

O derby paulistano foi um bom exemplo da queda de qualidade. Mesmo com o Palmeiras brigando pelas quatro primeiras posições, o que prevaleceu foi um jogo feio e sem criatividade.

O triste, entretanto, é que ainda não se vislumbra uma luz ao fim do túnel. Os clubes estão e continuarão deficitários por muito tempo ainda. As administrações continuarão amadoras e feudais.

Os europeus, que vêem Ronaldinho, Kaká, Ronaldo, Robinho e etc., agradecem. Sorte, também, de países sem tradição no futebol, que podem contar com nossos atletas.

Por Agni Berti


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