A Foca e o Coelho

Belo Horizonte, domingo, 16 de setembro de 2007. Cruzeiro e Atlético Mineiro se enfrentam no Estádio do Mineirão. O placar marcava 4×3 para a Raposa e o escore nada era além de um reflexo do jogo aberto, corrido e empolgante das duas equipes. Em suma, vinha sendo uma bela partida. Foi então que aos 34 minutos do segundo tempo um episódio ofuscou a beleza do clássico.

O cruzeirense Kerlon – o Foquinha, lembram? – dominou a bola na esquerda como se fosse um ponta, levantou a cabeça, a pelota, e ameaçou entrar na área petecando-a na testa. Fazendo a jogada que lhe rendeu seu apelido. O lateral Coelho do Atlético não gostou. Deu-lhe uma ombrada violentíssima, fazendo o garoto desabar no chão. Não demorou para que começasse a confusão. Os alvinegros cercaram Kerlon em uma roda reprovando a atitude, segundo eles, “antiesportiva” (!!!) do atleta. Como se isso não bastasse, o técnico do Atlético, o nada polêmico Leão, defendeu Coelho e disse que caso fosse o técnico de Kerlon lhe “daria alguns conselhos”. Pode?

Quer dizer então que o futebol arte virou “futebol ofensa”? Há quem argumente contra Kerlon dizendo que ele não faria isso se o Cruzeiro estivesse atrás no placar. Pode até ser, mas a jogada de Kerlon não foi desrespeitosa. O que ele fez foi driblar e não firula. Firula fez Edílson, na final do Paulistão de 99. Para quem não lembra, o Corinthians disputava o título contra o Palmeiras e acabara de empatar a partida em 2×2 com gol do próprio Capetinha – resultado esse que dava o título aos corintianos. O jogo já estava no final, eram 32 do segundo tempo quando Edílson – em pleno meio de campo e sem marcação alguma por perto – começou a fazer embaixadinhas. Não deu outra, teve início uma briga generalizada envolvendo jogadores e comissões técnicas – e Paulo Nunes foi acertado por um “sem pulo” daqueles, há de se dizer.

Mas, ao contrário do corintiano, Kerlon tinha em seu drible um propósito que não era desrespeitar o adversário ou muito menos humilhá-lo. Era ir para cima, em direção ao gol. Fazer uma jogada que pudesse redundar num perigo à meta adversária

O pior é que essa não foi a primeira vez que um jogador habilidoso foi criticado por “driblar de mais”. Nunca vou esquecer do dia em que um juiz, antes do jogo começar, chamou  o Robinho em particular e pediu para que ele se comportasse e respeitasse o adversário (!). Se esse tipo de raciocínio evoluir, aonde vamos parar? “Cartão vermelho!”; ”Mas por que professor?”; “Drible da vaca você vai dar no pasto! Aqui eu quero respeito!”.

Ainda sobre o caso Kerlon, outra declaração me intrigou. O zagueiro Luiz Alberto do Fluminense – que também não tinha nada a ver com a história – resolveu meter-se onde não havia sido chamado. Disse ele: “Sei que vou ser criticado e o que vou falar pode me comprometer até com o STJD. Mas imagine: um clássico, estou perdendo e ele vem pra cima de mim assim. Eu arregaço com ele! Domino a bola de qualquer jeito, dou até golpes de capoeira, mas pego a bola, a cabeça e tudo”. Menos Luiz Alberto, menos. Posso estar enganado, mas até onde sei, torcedor de FUTEBOL vai ao estádio para assistir FUTEBOL, e não capoeira. Certo, Luiz Alberto?

Bom, no fim das contas é sempre fundamental criticar a atitude dos antiéticos firulentos e enaltecer o talento dos habilidosos dribladores. Edílson fez embaixadinhas, mas pisou na bola. Kerlon não estufou as redes, mas “marcou um golaço”.

Por Alessandro Jodar


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