Bye Bye Brazil

por Rafael Cabral 

Você já ouviu falar do Pepe? Não, não falo do Pepe – José Macia, “o canhão da Vila” – que brilhava ao lado de Pelé e Coutinho no Santos. Aquele que se coroou como “o maior jogador da história do Santos Futebol Clube”, à exceção de Pelé, claro, já que “o crioulo não conta, ele não era humano”.

Esse aí jogou mais de 15 anos como profissional e nunca defendeu outra equipe que não fosse o Santos, onde disputou 750 partidas. Como se já não fosse o suficiente, José Macia ainda é o maior campeão paulista de todos os tempos. Venceu onze edições como jogador e uma como treinador.

Mas não é desse Pepe que vou falar. Sua biografia não é tão extensa. Seus números não são tão impressionantes. Képler Laveran Lima Ferreira, tão Pepe como o ponta-esquerda do Santos nos anos dourados, faz parte de um futebol diferente. De uma época diferente. De um tempo em que a lógica mercadológica dos clubes é aplicada também às seleções. Só se assemelhava ao Pepe imortalizado no fato de ser brasileiro. Agora nem isso.

O zagueiro Pepe, atualmente no Real Madrid, engrossa as estatísticas de jogadores brasileiros naturalizados por outros países. No seu caso, Portugal, seleção pela qual foi convocado para os jogos nas eliminatórias da Eurocopa – e posteriomente cortado, por lesão.

Pepe é mais um dos tantos brasileiros na História a serem convocados para o selecionado português, seguindo Lúcio, que se naturalizou nos anos 60; Celso, no final da década de 70; e mais recentemente, Deco, chamado a seleção por iniciativa de Scolari.

E tem mais gente na lista dos lusos. Comenta-se que o baiano Liédson pode ser o próximo. Felipão, claro, apóia a idéia e – como disse ao jornal português Público – considera as naturalizações uma “tendência normal” no esporte e que no futuro esta situação será cada vez mais freqüente – por exemplo, com atletas com origem no Leste da Europa que caminham para Portugal

“Para encerrar o assunto – que não vou falar mais sobre este assunto – todos ficamos muito felizes com o vencedor do triplo salto, Nelson Évora”, disse também, tendo em vista o público português, fazendo uma referência às naturalizações nos outros esportes – no caso, a do atleta filho de pais cabo-verdianos, nascido na Costa do Marfim, apenas recentemente tornado português.

No futebol, principalmente no caso dos brasileiros, as naturalizações estão extrapolando os limites do aceitável. Na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, cinco brasileiros atuaram por outras seleções: Zinha, pelo México; Francileudo, pela Tunísia; Alex Santos pelo Japão; Marcos Senna pela Espanha; e Deco por Portugal.

Mesmo a Alemanha – o país-sede – tinha quatro jogadores naturalizados: o ex-ganês Asamoah, o ex-suiço Oliver Neuville e os antigos poloneses Lukas Podolski e Miroslav Klose. E eles podiam contar também com um ex-tupiniquim, caso Kevin Kuranyi tivesse sido convocado – como vinha sendo antes do Mundial, e como foi posteriormente.

Alguns casos, como o do meia Adrianinho, mostram a incoerência das leis de naturalização nos esportes. Ele foi convocado para a seleção da Áustria por ter descendentes no país. Caso comum? O fato é que ele sequer havia estado lá anteriormente.

Pouco antes da Copa, a Fifa – pressionada – já havia tentado frear a tendência às naturalizações. O caso que mais saltou aos olhos da Fifa foi o de uma republiqueta sem tradição alguma no futebol: o Qatar. O país havia oferecido uma bolada – como se fosse comprar os “passes” – aos brasileiros Ailton, Dedé e Leandro – que então atuavam no futebol alemão – para que defendessem sua seleção em busca por uma vaga na Copa de 2006. Foram impedidos. 

Fizeram-se então leis um pouco mais rígidas. Hoje, caso um jogador decida defender outras cores que não as de seu país natal, precisa comprovar que tem pai, mãe ou avós nascidos no país. Ou – e é aí que está o perigo – residir dois anos seguidos na nação que pretende defender. Com leis de fachada, pouco restritivas, a tendência – como reza Felipão que aconteça, enquanto estiver no comando de Portugal – não vai parar de aumentar.

Veja bem, não sou contra as naturalizações por princípio. Acredito que, desde que haja um laço cultural real entre o jogador e o país escolhido, devem ser feitas. Aliás, pouco me importa que jogadores estejam deixando o Brasil e nem recrimino que o façam. Estão mais do que certos, buscando oportunidades.

O que me incomoda é a incongruência: ou se coíbe a farra das naturalizações ou as seleções nacionais perderão completamente o sentido. 

Casos recentes de tentativa de “compra” de jogadores por seleções, como no quase do Qatar – não concretizado – ou do Azerbaijão – que conta com os ex-brasileiros André Ladaga, Ernani Pereira e Leandro Gomes nas eliminatórias da Eurocopa – demonstram a nova realidade do mercado do futebol. O Brasil está virando, aos poucos, o que China já é para o tênis de mesa: um exportador de talentos em massa, não só para clubes estrangeiros, mas também para as seleções rivais. 

Esperem só. Cada seleção com o seu brasileiro de estimação. Um futuro nada aprazível para o futebol, convenhamos. Mas calma, os brasileiros que grafarão o nome de seu ex-país com “Z” podem trazer algo de bom para as terras tupiniquins. Quem sabe as seleções vizinhas não joguem uns trocados pro Brasil, às custas de seleção-formadora?

No momento, só os jogadores que sabem que não serão aproveitados na seleção brasileira se arriscam no novo “nicho”. Mas isso pode mudar. Por enquanto, ao lado de um punhado de jogadores que passariam batidos com a amarelinha, perdemos um Pepe. Pode não ser grande coisa. Espere só até perdermos um Pelé.


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