Entre a razão e a emoção

Há alguns anos, eu me lembro como era absurdamente feliz a época de final de ano. Alem de término de aulas e começo das férias, (o que significava jogar futebol todo dia, dormir e acordar tarde diariamente, brincar com os amigos pelas ruas, viajar para praia e tudo que há de bom nas férias), havia também o Natal e o Ano Novo, onde toda família se reunia, ganhava-se presentes, comia-se bem e reunia-se com os familiares. Mas um dos maiores, senão o maior, motivo para minha alegria no final de ano eram as finais do campeonato brasileiro.

Bom, mas espere aí. O final do ano continua espetacular. Férias, viagens, Natal, Ano-Novo e tudo mais. Quase tudo mais. Não tenho mais as finais. Posso estar parecendo um pouco exagerado, mas não, estou sendo muito sincero. Quem realmente gosta de futebol sabe a falta que faz acompanhar aquelas partidas, todas eram emocionantes. Particularmente eu assistia a tudo. Coritiba x Sport, São Caetano x Atlético Paranaense, Vitória x Grêmio. Não importava, eu assistia a tudo e me empolgava em todas as partidas.

Não há como negar que um jogo decisivo é mais especial que os demais. Os jogadores, a torcida, os árbitros, todos sentem isso. Até Galvão Bueno grita mais forte que o normal. E em jogos assim, todos se empenham mais, cada lance é emocionante. Os nervos estão a flor da pele e geralmente ocorrem confusões. A maioria dos lances antológicos acontecem nessas partidas: o chapéu e golaço de Pelé na final de 1958, os dois de Maradona (o de mão e o que ele driblou todo o time inglês) nas quartas de 1986, o balaço de Branco que colocou o Brasil definitivamente na frente da Holanda nas quartas de final de 1994 (e que Romário desviou da bola por alguns centímetros), o de Robinho contra o Corinthians na final do Brasileirão de 2002 (de pênalti, porém o que valeu foi a jogada que já nasceu clássica, na qual Robinho aplicou 8 pedaladas em cima de Rogério e sofreu a penalidade máxima).

Enfim, se eu fosse relembrar todos os momentos marcantes em finais, teria que escrever uma série de livros dividida em gigantes tomos. Mas a verdade é que o sistema de pontos corridos vem fazendo muito bem para o futebol brasileiro. Os clubes estão se estruturando, a média de público está aumentando e já se tem um calendário definido para o ano futebolístico. É indiscutível que o atual campeonato premia o melhor time. E isso faz com que os times comecem a pensar a longo prazo, comecem a pensar em formar um bom elenco e não só em 11 jogadores. Não dá mais para formar um time meia-boca que vai lutando para passar em sétimo ou oitavo para as finais e ai crescer.

Mas talvez esse fosse o fato mais interessante das finais. Como os time crescem e mudam nestas situações. Tudo que ocorreu no resto do campeonato é deixado para trás, agora é uma situação toda nova e cada time reage de uma forma diferente. Em 2002 o Santos passou raspando, em oitavo, e foi campeão com um campanha genial nas finais. No mesmo ano o São Paulo liderou o campeonato todo, e nas finais foi desclassificado logo de cara pelo Santos. Na Copa de 1982, a Itália se classificou empatando os três jogos da fase classificatória, e o Brasil ganhou suas três partidas. No confronto direto a mística da Azurra ressurgiu, e o sofrível time da Itália ganhou de 3 a 2 da seleção brasileira, que depois da de 1970 foi considerada a melhor de todos os tempos.

Não estou aqui defendendo que se voltem aos velhos moldes do futebol brasileiro, de desorganização total dos clubes e das confederações, e sim que se busque uma nova forma que envolva uma final. Poderia ser uma final entre os dois times que tiveram melhor desempenho durante o campeonato, ou entre o campeão do primeiro turno contra o campeão do segundo. Na minha opinião é um debate que pode e deve ser aberto, pois assim como o gol, a final é elemento principal do futebol.

Que me desculpem os pontos corridos, mas final é fundamental.

por Fernando Martines


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