Nadar ou Afundar Juntos?

Os direitos de transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro de 2007 foram adquiridos pela rede Globo de televisão por uma quantia de R$ 350 milhões depois de uma disputa acirrada com a rede Record, que já estava desafiando a maior gigante da televisão brasileira desde o começo do ano, pelos direitos de transmissão do Campeonato Paulista. No entanto, se para o Paulista a negociação foi interessante aos contratados (leia-se clubes e federação que viram a oferta “Global” aumentar forçosamente em quase R$20 milhões), no Brasileirão a situação foi diferente.

A Record chegou a oferecer entre R$150 milhões e R$250 milhões a mais do que a Globo segundo alguns informes. Boatos na época da negociação diziam que a Record estava procurando por um fiador para oferecer até R$1 bilhão pelos direitos. Com algumas jogadas políticas e pressão nos clubes devedores que adiantaram o recebimento de suas cotas dos direitos de imagem, no entanto, a Globo venceu a disputa. Isto me leva a perguntar: Como salvar o futebol brasileiro, se os profissionais disponíveis fazem de tudo para continuar na mesma situação de miséria de sempre.

Desde o começo deste século, o dinheiro da televisão se tornou a principal fonte de renda dos times do Brasil, superando na arrecadação o dinheiro com a transferência de jogadores. Nem a venda de material esportivo com a marca dos clubes, nem o merchandising, nem o dinheiro dos ingressos vendidos garantem hoje em dia a realização dos jogos. Essa dependência do esporte não é nenhuma novidade, nem aqui nem no resto do mundo. Nos Estados Unidos os esportes também recebem quantias astronômicas de dinheiro de redes televisivas.

A NFL estendeu seus contratos com a FOX, CBS e ABC, que já eram da quantia de U$17, 2 bilhões, por mais 5 anos e U$8 bilhões. A NBA tem um contrato anual com a ESPN/ABC no valor de U$765 milhões anuais. O Baseball tem contratos com a ABC/ESPN, TBS e FOX que giram em torno de U$670 milhões. Então qual é o problema?

Um dos problema é que nesses esportes, apesar deste dinheiro ser essencial e representativo da popularidade desses esportes, os direitos televisivos não correspondem à mesma porcentagem da arrecadação total dos times comparadas às porcentagens da arrecadação dos times brasileiros. Um time brasileiro que recebe uma cota de transmissão de R$30 milhões pode basear muito dos seus gastos neste dinheiro. Já os U$118 milhões recebidos por um time da NFL todo ano por um contrato semelhante representam pouco mais de 50% do dinheiro gasto só com os salários de jogadores. Administrativamente, a preocupação de qualquer time em qualquer esporte em outras partes do mundo com diversificar os negócios, buscando novos mercados e fontes de renda, é infinitamente superior aos clubes do Brasil.

Mas esquecendo esta questão por um instante e assumindo que a situação da dependência do futebol pelo dinheiro da TV é irreversível, então o que explica a vitória da Globo, que pagou menos mas levou, que é o verdadeiro problema? Simples. Poder político, rabo preso dos dirigentes e da representação das federações e má administração do dinheiro dentro dos próprios clubes, que força diretorias a mendigar e fazer acertos que em nada os beneficiam. Às vezes, o futebol brasileiro parece uma pessoa se afogando que não quer ser salva, desviando-se das bóias salva-vidas atiradas em sua direção. E isto é o verdadeiro problema, por quê é uma forma, ao meu ver, errada de negociar numa concorrência que antes, em tempos mais onipotentes da emissora carioca nas paragens televisivas tupiniquins, era impossível.

A concorrência pela transmissão de jogos só beneficia as federações e os clubes. Eles têm tudo a ganhar e nada a perder. É um processo que não fortalece os clubes monetariamente apenas, também os fortalece valorizando o produto que estão vendendo, o futebol. É uma oportunidade de restaurar o status do esporte, que há muito tempo se deteriorou pois os dirigentes nunca souberam negociar com a TV. Por isso o esporte fica preso aos horários estabelecidos de forma ditatorial pelas emissoras, dificultando ainda mais a ida do torcedor ao estádio. Mas, até que se desfaçam laços obscuros com a atual detentora dos direitos de transmissão e os times, nada melhorará no futebol. É apenas mais um dos sintomas da apatia e total desinteresse na modernização do esporte, da produção de um bom espetáculo e de um comprometimento com as torcidas que sofrem eternamente.

por Carlos Senna


About this entry