Campo de preconceitos

Que o futebol sempre moveu multidões e é um orgulho nacional todos nós sabemos. Fora de campo o esporte não tem sido fonte de muitas alegrias, mas mesmo assim não consegue sair das páginas dos grandes jornais.

Por algum tempo o foco foi em um único jogador, Richarlyson, que decidiu vestir a camisa contra o preconceito a homossexuais e lutar contra esse lado sombrio da sociedade. O primeiro clássico foi contra o dirigente do Palmeiras José Cyrillo Jr., quando no dia 30 de junho o jogador formalizou queixa-crime por comentário feito em um programa de esporte em rede nacional. Aparentemente seria uma vitória fácil. Em 5 de julho, o juiz Manoel Maximiano decidiu que o caso não tinha base e registrou que futebol é jogo “viril, varonil, não homossexual”. O preconceito não é um assunto novo, até mesmo no futebol. No documentário “Esperando Telê” há uma declaração do técnico contra a presença de homossexuais no futebol. Um dos diretores, o psicanalista Tales Ab’Saber, em entrevista a Folha de S. Paulo diz ter discutido bastante a natureza contraditória do personagem e afirma que “o futebol é um campo sublimado da homossexualidade masculina”.

O esporte influi tanto na sociedade que o professor de história medieval da USP, Hilário Franco Jr., publicou o livro “A Dança dos Deuses – Futebol, Sociedade e Cultura” (Companhia da Letras, 472 págs., R$54). No livro o historiador discute o futebol no Brasil na década de 40. Perguntado pela Folha de S. Paulo sobre o “caso Richalyson” o historiador disse que o comentário do dirigente do Palmeiras reafirma (sem justificar) a rivalidade entre os clubes e “se ‘o futebol não é para homossexuais’, a magistratura não é para preconceituosos”.

Após ter grande repercussão na mídia, o Instituto Datafolha realizou uma pesquisa, na cidade de São Paulo, para saber a opinião dos cidadãos. Entre os que dizem ter muito interesse por futebol, 81% acham que homossexuais podem praticar o esporte profissionalmente. Essa taxa é de 78% entre os que têm um pouco de interesse e de 79% entre os que afirmam não ter qualquer interesse por futebol. Ou seja, percentuais que não diferem entre si, quando se leva em consideração a margem de erro da pesquisa, de três pontos percentuais, para mais ou para menos. Agora, já no mês de setembro, não se tem mais nenhuma notícia do encaminhamento do processo.

O preconceito não para ai. A situação da mulher no futebol, não só como parte integrante, como bandeirinhas, árbitras, jornalistas esportivas e jogadoras, mas também como torcedoras, não é das melhores. Com 51% de mulheres, contra 49% de homens, o Corinthians possuí a maior torcida feminina do Estado de São Paulo. Em contrapartida o Santos possui a menor, com apenas 27% de torcida feminina. A do São Paulo é igual, 50% para cada sexo e a do Palmeiras 59% são homens, contra 41% de mulheres.

A situação das jogadoras, porém, parece ser a mais lamentável. Sem a devida abordagem da mídia, muitas jogam futebol e possuem um outro emprego. Apesar de terem um campeonato mundial a disputar, os torneios na maioria das vezes são amadores e até mesmo a seleção número um da FIFA, a dos EUA, vive a beira da falência. No Brasil, o único contato que a população teve com a habilidade das meninas foi durante o PAN, onde, em especial,  Marta provou que joga mais futebol que muito marmanjo de time grande com contrato milionário.

Mas a situação só tende a mudar, com o aumento do interesse do público feminino pelo futebol, já vemos mais comentaristas esportivas na televisão, mais torcedoras nos estádios e bandeirinhas – apesar do desaparecimento de algumas delas – atuando nessa área antes exclusiva dos homens.

Assim, além do futebol arte devemos promover o fim dos preconceitos que rondam essa paixão nacional.

Por Mariana Carrera.


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