Perestroika

No último domingo, diálogos envolvendo dirigentes de Corinthians e MSI revelados pela Operação Perestroika da Polícia Federal foram divulgados por Juca Kfouri na Folha de S. Paulo. A história toda parece ser um roteiro de filme policial, com muita intriga, chantagem e até caso de amor, e como em toda produção hollywoodiana os bandidos foram descobertos e vão responder pelos seus atos. Mas a semelhança com a ficção acaba por aí.O mocinho do enredo – leia-se o torcedor – não terá um final digno, onde, após uma reviravolta na história, consegue fazer com que o vilão pague por tudo que fez e ainda termine mais feliz do que estava antes de ser prejudicado.

Provavelmente essa operação só tenha servido para tornar público o que realmente acontecia na parceria entre a Media Sports Investiment (MSI) e o Sport Club Corinthians Paulista. Quando falei em “responder pelos seus atos”, quis dizer que agora que o público sabe de todas as falcatruas executadas pela quadrilha, os integrantes estão vulneráveis a todo tipo de ataque da opinião pública, mas daí a pagar pelos erros é uma longa caminhada. Pessoas como Kia Joorabchian e Boris Berezovski, que têm mandatos de prisão e extradição em outros países, continuarão seus afazeres sem serem importunados, gozando de todo conforto que alguns bilhões de dólares podem proporcionar. Os brasileiros envolvidos serão ouvidos, mas é remota a hipótese de haver prisão para Alberto Dualib, Renato Duprat, Paulo Angioni, Nesi Curi e companhia.

A nação corintiana que tanto se gaba de ser “maloqueiro e sofredor, com muito orgulho” deveria perceber que é usada pelos dirigentes, que tratam de fazê-los sofrerem. O contrato com a MSI teve o aval das organizadas, e em poucos meses já havia uma relação de amor dos torcedores com o iraniano Kia. Hoje a torcida continua sem um estádio decente, não classificada para a tão almejada Copa Libertadores da América e tendo que acompanhar um time de campanha medíocre no Brasileirão.

O torcedor, de forma geral e não apenas o corintiano, deve mudar a forma de como vê o futebol. Cobrar apenas o time que entra em campo surte resultado somente na esfera momentânea do jogo. É necessário exigir transparência por parte do clube como instituição, pois o sucesso alcançado através do planejamento honesto é benéfico tanto para os cartolas quanto para a torcida. Parece elementar, mas a maioria dos homens fortes do futebol nacional não pensa assim: somente aliando seriedade e trabalho duro se chega ao sucesso, e sucesso lícito dura muito mais que uma euforia conquistada graças a meios ilegais.

por Murilo Aquino.


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