Hierarquia do futebol

O campinho de terra batida, de grama sintética ou natural, a quadra poli esportiva da escola ou até mesmo a rua se transformam no grande Maracanã. As traves são feitas por qualquer coisa: um pedaço de pau velho, tijolos roubados da reforma do lado ou os chinelos havaianas de algum jogador. A bola pode ser de plástico, de couro, oficial ou não, pode até ser feita das meias velhas que a mamãe usava. Não importa, sendo redonda ou, pelo menos, oval, o jogo pode acontecer. Agora basta reunir alguns amigos que a partida está completa.

O par ou ímpar disputado pelos melhores jogadores presentes decide quem começará escolhendo. Alternadamente eles vão montando suas escalações. Os primeiros a serem escolhidos são aqueles que possuem algum tipo de habilidade. Em seguida, os que possuem um bom preparo físico e que o “técnico” julga ser importante para algum momento do espetáculo. Paulatinamente, o bando vai diminuindo e filas vão se formando atrás dos escaladores, mas nem todos os candidatos foram encaixados em alguma das duas equipes.

Os gordinhos e os magrelos desengonçados estão aflitos um ao lado do outro, no que mais parece um paredão de fuzilamento do que uma simples escolha de times. Entre eles há uma briga. Não pela artilharia, mas para não ser o último a ser escolhido. Entreolham-se esperando serem chamados e rezam para não escutar as célebres frases dos outros jogadores “Pode ficar com ele!” ou “Já que não tem jeito, vem você mesmo!”.

A escolha dos jogadores está cercada de magia. Ser o primeiro escolhido envolve um respeito, uma mistificação em cima da habilidade do jogador e o desgosto de ser o último é grande.

No futebol também existe uma hierarquia e é por isso que meu pai, com seus 48 anos, sente orgulho em dizer “Olha que eu ainda sou o primeiro a ser escolhido no par ou ímpar!”.

por Fernanda Amalfi – Fefi


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