Desorganizadas

Detesto torcidas organizadas. Qualquer torcedor de bem, pacífico e que admira o bom futebol, faz-se de trouxa – com o perdão da palavra – ao filiar-se a uma dessas organizações criminosas. Sei que muitos bons torcedores consideram um ato de amor ao clube fazer parte da “Gaviões”, da “Mancha” e etc. Mas é preciso deixar a ingenuidade de lado e enxergar que o amor nem sempre é a prioridade dessas organizações.

Por vezes ele dá lugar a um sentimento de posse, que faz crer que a organizada e seus membros têm mais direito ao clube que torcem do que os demais torcedores. Ah, mas quem dera isso fosse o pior! Quem dera o amor (ou será obsessão apenas?) pelo time do coração não fosse sinônimo de ódio às camisas rivais, aos clubes, aos torcedores, às pessoas, aos seres humanos que não vestem uma camisa cujas listras pendem para o mesmo lado que a sua. O que não impede esses grupos de possuírem regalias dignas de celebridade.

Por acaso você, leitor, já teve direito à escolta policial para ir da sua casa à casa de um amigo ou parente? Se a resposta for sim, saiba que você é uma exceção. Assim como a Independente, torcida organizada do São Paulo, que foi escoltada pela polícia numa caminhada do centro da cidade até o Palestra Itália, estádio do Palmeiras e palco do último clássico entre os dois times. Tudo para evitar um possível confronto com a Mancha Verde, torcida organizada palmeirense.

A caminhada foi bastante noticiada pela mídia, mas senti que lamentavelmente ela não causou o impacto que deveria. Não ouvi nenhuma grande queixa, nem nada parecido a respeito. Congratulo a competência da PM, que foi impecável ao evitar o embate entre as duas facções, mas será que esse é o caminho certo? Por acaso um pai deve ir à escola para vigiar o comportamento do filho? Não seria mais correto puni-lo adequadamente quando fosse transgredida uma regra? Mas não, ao invés de punir as torcidas briguentas, a polícia agora as leva de mãos dadas e com segurança ao estádio. Enquanto nós agradecemos.

“Marcha do Terror” foi uma das expressões utilizadas pelo repórter Cosme Rimoli, do Jornal da Tarde, para referir-se ao ocorrido. Rimoli cobriu a caminhada e deixou claro em seu relato que o comportamento da torcida não foi assim, digamos, elegante. Talvez por conta do forte cheiro de álcool que emanava de alguns dos presentes ou pelos cantos agressivos ao nível de “Como vai ser? Assim não dá!! O quê eu vou fazer sem meu pó para eu cheirar!!” e “Ãhn, ãhn, ãhn, Independente é Talibã!”.

Faço questão de repetir que admiro profundamente a competência da polícia nesse episódio, mas basta um pouco de reflexão para perceber que estamos tão no fundo do poço que até escolta para terroristas temos considerado uma boa idéia.

Até aqui, parece que apenas a torcida Independente é violenta, o que está longe de ser verdade. Em documentário produzido por alunos da PUC, Isidoro Lobreto Filho, diretor geral da Mancha Verde, diz que a organizada influencia decisões do clube, e cita como exemplo o caso do jogador Thiago Gentil, que atuou pelo Palmeiras em 2001 e 2004. A organizada não gostava do jogador e queria vê-lo longe do Palmeiras, mas mesmo entrando em contato com dirigentes e até com o treinador do clube, Thiago Gentil ainda vinha sendo escalado. Isso é, até que a Mancha deu seu ultimato. Num telefonema ao presidente do clube, Isidoro conta que foi dito o seguinte: “Ou o senhor manda esse cara embora, ou a gente quebra as pernas dele e ele não joga mais futebol”. Ele também faz questão de acrescentar com orgulho: “A Mancha faz as suas coisas na surdina, tem vários jogadores que já levaram uns tapa aí, saíram, e a imprensa nem ficou sabendo”. Comportamento exemplar, não?

Infelizmente esse tipo de ideologia se repete na grande maioria das torcidas organizadas, que chegam até ao absurdo de torcer pelo mesmo time, mas brigar entre si. Ou pior, envolver nos conflitos quem não tem nenhuma relação com isso.

Contudo, é de vital importância ressaltar que até mesmo nas organizadas o grupo de briguentos nem sempre é maioria, sendo que um discurso de paz até chega a ser difundido dentro dessas instituições. Também é claro que apenas extinguir as organizadas não vai trazer a paz de volta às arquibancadas. A violência que vai aos estádios é a mesma que se encontra nas esquinas e nos becos do país, e a solução para esse gravíssimo problema passa invariavelmente por uma melhoria do sistema de ensino e das condições de vida da população.

Mas, de qualquer forma, não se pode permitir que bandidos escondam-se sob a alcunha de torcedores, que afastem o bom torcedor dos estádios, que façam das arquibancadas um campo de guerra e do futebol um motivo para matar e que ainda por cima repitam a mesma cena todo domingo, chafurdando na impunidade que é marca registrada do Brasil.

Os rojões foram feitos para mirar o céu, e não o adversário. E é disso que uma meia dúzia de estraga prazeres têm de se dar conta.

Matéria de Cosme Rimoli:
http://blog.opovo.com.br/esportes/arquivo.asp?arquivo=30082007

Documentário da Mancha Verde:
http://www.youtube.com/watch?v=k7Mzy67NNK4&mode=related&search=

*Essa é a coluna de sábado. Excepcionalmente desta vez, devido a problemas técnicos, ela foi publicada no domingo.

por Alessandro Jodar


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