O cronista sem idade

por Rafael Cabral 

Após longo tempo de ausência, as obras futebolísticas de Nelson Rodrigues voltarão às estantes das livrarias, por meio de lançamento da Editora Agir, que vem republicando sua obra em prosa. “O berro impresso das manchetes” reúne a íntegra das crônicas futebolísticas que Nelson escreveu para a revista Manchete Esportiva, durante a década de 50.

Em seus textos, Nelson Rodrigues não estava interessado nas “vulgaridades” que a crônica esportiva dos dias de hoje abraça como fundamentais. Se o lateral-esquerdo não é digno da camisa que veste; se o técnico deveria mudar; se havia ou não impedimento. A bola, o jogo, o resultado: eram meros pretextos. O gramado era um grande palco, onde batalhas épicas aconteciam, onde heróis e vilões se digladiavam.

E por falar em pretexto, alguns pensamentos tangenciais me vêem à mente com o livro na mão. Noto logo em uma das primeiras crônicas – “O craque sem idade” – a absoluta preferência, ao longo dos tempos, que os jogadores brasileiros têm pelo diminutivo. Aliás, pelos apelidos em diminutivo, o que aumenta ainda mais o grau de intimidade.

As camisas amarelas da seleção brasileira dos idos dos anos 50, como no caso dessa crônica que narra a vitória do Brasil por 3 a 0 em cima do Paraguai, mostravam nomes como “Escurinho” e “Zizinho”. As de hoje; “Ilsinho”, “Robinho”. Há a necessidade até de um sobrenome para diferenciar os diminutos tupiniquins: Ronaldinho “Fenômeno” e Ronaldinho “Gaúcho”, por exemplo.

Confesso nunca ter visto um “Little Joseph” no escrete inglês, muito menos um “Petit Henri” na seleção francesa. O único apelido que consigo lembrar em uma seleção européia é o do jogador Deco – que não conta, já que, apesar de naturalizado português, não deixa de ser brasileiro. 

Por lá, vemos apenas um desfile de nomes de família: Lampard, Scholes, Ballack, com a formalidade de um pelotão em marcha adentrando no gramado. Mas divago.

Vamos ao que interessa. Voltemos ao livro. Em “O craque sem idade”, Nelson começa narrando o que até então era “um lírico, platônico” zero a zero. Lírico só pra ele. Os torcedores, revoltados, já não sabiam nem mais quem insultar.

Eis que, miticamente, Zizinho entra em campo. O velho Ziza, que eu tanto gostaria de ter visto jogando. A partir do momento em que o alto-falante anunciou o nome de Zizinho – até então no banco – Nelson desiste da incerteza da torcida e, inabalável, sentencia: “a partida já estava automaticamente e fatalmente ganha”. O árbitro, os bandeirinhas, a torcida e mesmo os dois times, eram agora de uma irrelevância absoluta – “podiam ter se retirado, podiam ir para a casa”, escreve o cronista.

Nelson nunca perdia esse tom fulminante e exagerado. E não me refiro apenas às crônicas futebolísticas, mas também àquelas em que divagava sobre política, cultura, religião e tudo mais que há entre o céu e a terra. Não havia espaço para reticências.

Isso fica claro no decorrer dessa crônica. O escritor diz que a bola seguia Zizinho, como uma cachorrinha fiel, e desvendando a alma da bola que naquelas alturas ainda era de capotão, diz “há na bola uma alma de cachorra”.

Explica, posteriormente, o título: “Geralmente, o jogador de 34 anos está gagá para o futebol, está babando de velhice esportiva”. Obviamente, nessa definição, Zizinho não há: “que importa a nós tenha Zizinho dezessete ou trezentos anos, se ele decide as partidas? Se a bola o reconhece e prefere?”. Refletindo sobre a vitória, que segundo ele já havia chegado quando o alto-falante anunciou o nome do craque, Nelson termina magistralmente, como era usual: “Em último caso, poderá jogar, de casa, pelo telefone”.

*

Em busca de um final digno do citado acima, volto à minha digressão inicial: Porque tantos inhos na Terra Brasilis? Penso na nossa informalidade. Imagino a resposta de Nelson, que envolveria nossa “síndrome de vira-lata”, expressão cunhada por ele para explicar o desprezo do brasileiro por si mesmo, ou, nas palavras do próprio: “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores, sobretudo no futebol”. A extrema humildade – e a inerente cabeça baixa – seria nosso grande defeito como povo, como nação. Mas, infelizmente, não chego à conclusão alguma.

Depois de algumas páginas de “O berro impresso das manchetes”, não há divagação que resista. Resta – como o vira-lata que Nelson usa como exemplo – abaixar a cabeça e aprender com o mestre o que é o futebol. No entanto, outra pergunta não para de martelar na minha cabeça: “Porque não se fazem mais cronistas como Nelson Rodrigues?”. Ainda, as respostas insistem em não aparecer.

Acabo por pensar em Nelson, novo, escrevendo sobre futebol sem enxergar quase nada do que acontecia em campo – cegueta que era – e mesmo assim, excelente. Também o imagino, velho, no final da vida, “reacionário” – como o próprio tratava de assumir – se preocupando mais com política e em esculhambar a esquerda. Era ainda melhor.

Hoje, tendo seus comentários sobre futebol relançados nesse “O berro impresso das manchetes”, quase 30 anos após sua morte, continua atualíssimo e olha de cima os que ameaçam tirar o seu posto de cronista-mór do jornalismo esportivo, sustentando a esperança de que com o passar do tempo suas crônicas ficarão ultrapassadas.

Podem continuar tentando – em vão. Suas crônicas são definitivas – que me importa se têm dezessete ou trezentos anos? Para os grandes cronistas, assim como para os grandes craques, o tempo não é nada.


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