Um europeu entre nós.

Vou me iniciar no mundo do jornalismo esportivo, talvez arriscando alto demais. Comparar um clube brasileiro como um clube europeu? Talvez muitos me taxem de louco, mas isso me parece perfeitamente plausível. O clube em questão, o caro leitor já deve presumir. É o São Paulo Futebol Clube.

Na vastidão de incompetência e corrupção que assola o futebol brasileiro, o São Paulo vem destoando fortemente desse cenário. Com um ótimo plantel, estrutura de primeiro mundo e dirigentes que realmente trabalham – ao contrário da grande maioria que só sabe aparecer em programas esportivos falando do que não sabem (ou seja, futebol e como gerir um clube).

Em relação ao elenco não há o que discutir. O campeonato brasileiro está aí e fala por si só. A defesa é um caso a parte, é a melhor do campeonato, tendo tomado 7 gols em 23 partidas. Alguns especialistas começam a apontá-la como a melhor de todos os tempos! Mas ter uma boa equipe não é exclusividade do tricolor paulista.

Recentemente, vimos o Santos de 2002 de Robinho, Diego, Elano e Renato, o Cruzeiro de 2003 comandado no banco por Luxemburgo, e em campo por Alex e Maldonado e o Corinthians de 2005 com Tévez, Carlos Alberto, Roger, Nilmar. Qual, então, a diferença entre estes casos? A diferença é que o Santos foi feliz em ter uma geração tão boa advinda da base do clube, o Cruzeiro foi montado pelo mestre (sim, mestre) Luxemburgo, e o Corinthians foi formado com o dinheiro escuso da MSI.

Por outro lado, o São Paulo foi fruto de um ótimo planejamento. Planejamento esse que envolve todos os aspectos do clube. O técnico é respeitado, tem seu trabalho valorizado e se tem a política de prezar pela continuidade do comandante – durante e após a Libertadores, Muricy foi duramente contestado por torcida e alas da diretoria, mas foi mantido no cargo.

Outro exemplo é o Reffis (Reabilitação Esportiva Fisioterápica e Fisiológica), um centro de reabilitação e prevenção de atletas. À época da construção, o clube tinha 2 milhões de dólares em caixa e, ao invés de contratar um grande jogador, fez o Reffis. O centro ajuda o São Paulo a reabilitar rapidamente seus jogadores e mais do que isso, prevenir lesões. Também gera renda, pois atletas de grandes clubes se tratam lá. E isso possibilitou uma grande contratação: Ricardo Oliveira se tratou no Reffis, e quando recuperado jogou o primeiro semestre de 2006 pelo clube.

Por último, há a qualidade na reposição de jogadores. O tricolor, como qualquer outro clube brasileiro, perde jogadores para o mercado europeu. A diferença é que repõe com rapidez e eficiência. Esse “poder” se deve à sua estrutura, sua organização e sua força econômica. Que jogador não quer atuar em um time que o respeita, o proporciona um bom salário, grande estrutura e visibilidade no mercado europeu? Isso até está gerando uma fama de “ladrão” de jogadores para o São Paulo – que digam os palmeirenses.

E é por isso tudo, por dar continuidade a seus técnicos, por investir na infra-estrutura, investir na equipe, pagar religiosamente os vencimentos e ter maior poder de contratação que qualquer equipe brasileira, que o São Paulo é um europeu entre nós, que, como os clubes do 1º mundo, também desfalca as equipes tupiniquins.

O exemplo mais emblemático foi uma matéria que saiu recentemente na Folha de São Paulo. O texto dizia que o tricolor promove excursões escolares diariamente ao Morumbi e à sala de troféus. Isso logicamente gera uma nova legião de jovens torcedores do clube (não me recordo muito bem dos dados mas, entre a faixa etária mais jovem, torcedores do São Paulo já são maioria). Enquanto isso, no Palmeiras e Santos tal programa é feito muito rara e timidamente, sem falar no Corinthians é tal programa é inexistente.

Bom, essa foi minha primeira contribuição. Espero que tenham gostado e que perdoem meus erros de iniciante. Sei que no São Paulo nem tudo são flores (vide o Morumbi, alguns membros da diretoria…) mas, em comparação com os outros clubes brasileiros, o bicampeão brasileiro é só elogios. Creio que essa “europeização” do tricolor mereça uma matéria completa do Domínio da Bola, com exemplos e números (que realmente fizeram falta em meu texto).

Ah, já ia me esquecendo. Não sou são-paulino.

por Fernando Martines


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