Começos

Olá e bem-vindos ao Domínio da Bola.

Este blog que você está vendo é a realização de um plano forjado a 28 mãos, um projeto de amor ao futebol. Por isso, parabéns. Você está entrando a bordo no ponto de partida de uma viagem ambiciosa de 14 alunos da Faculdade Cásper Líbero. E o começo de qualquer coisa é sempre algo especial, o momento em que tudo o que há é o potencial e o sonho e a proposta. Nossa proposta é simples: Queremos trazer as melhores reportagens sobre o esporte até você, junto com as nossas opiniões e visões sobre este, o mais apaixonante dos assuntos.

Começos são sempre especiais porque são momentos para refletir sobre o passado, buscando vislumbrar mais claramente o futuro. Eu me lembro com um carinho especial do começo da minha paixão pelo futebol, que começou com a minha paixão pelo São Paulo Futebol Clube. Era 1986 e o Campeonato Brasileiro para mim era como uma música distante tocando ao fundo. Eu tinha seis anos de idade e realmente estava mais preocupado em brincar no playground do meu prédio do que em prestar atenção num programa de televisão onde 22 homens corriam atrás de uma bola. Afinal, eu fazia isso quase todos os dias com meus amigos e nunca ninguém se preocupou em colocar as nossas peripécias na televisão.

Mas meu avô era fanático. Santista em São Paulo, torcedor do América no Rio de Janeiro, sua cidade natal, meu avô era um mistério para mim. Geralmente um senhor de fala calma e jeito ameno, ele se transformava na frente da TV. Suava frio, gritava, xingava, ria e chorava dependendo de qual time ganhava e eu simplesmente não conseguia entender o porquê daquela metamorfose. Não era sempre que eu presenciava aquelas cenas, pois geralmente eu o via à noite nos fins de semana e nas quartas-feiras, mas, às vezes, nós passávamos o sábado juntos e, invariavelmente, ele repetia o espetáculo que é o calvário do torcedor. Enquanto a família se reunia na sala e falava amenidades ele se levantava calmamente e entrava casa adentro, preparando seu fiel cachimbo para o fumo, entrava no quarto com a única outra TV além da sala e, em pouco tempo, começava a gritaria.
Não sei o que houve comigo, geralmente eu ficava perfeitamente contente sentado quieto, ouvindo as conversas dos adultos. Mas naquele dia, ou por curiosidade ou por simples sorte, eu entrei no quarto para ver o que o meu avô estava fazendo. Era dia 22 de Fevereiro. Para quem não sabe o que este dia significa, para mim foi o dia que a minha vida mudou. O São Paulo jogava o primeiro jogo das finais do Campeonato Brasileiro com o Guarani.

Eu abri a porta do quarto devagar, meu avô olhou para mim com a mesma ternura com a qual ele sempre olhou e mandou que eu me sentasse ao seu lado e anunciou, com certa veemência, “Estamos torcendo para o São Paulo. Eles são os de branco”. E com cada jogada ele me explicava uma regra, ou contava uma história sobre algum jogo passado, algum craque da história do futebol que ele havia visto jogar, ou sobre algum jogo do qual ele participara (meu avô era lateral direito do time de veteranos do Corinthians naquela época, apesar de sempre ter tido um ódio especial pelo time do Parque São Jorge). No intervalo do jogo, sem gols até aquele momento, eu já me imaginava um especialista, distinguindo habilmente laterais de tiros de meta e já até sabia quem era o melhor jogador em campo, um tal de Careca.

Qual não foi minha tristeza quando, aos 15 do segundo tempo, o Guarani saiu na frente. Eu chorei como se eu tivesse apanhado, mas meu avô me consolava dizendo “Calma, ainda tem muito jogo pela frente”. Mas já era tarde. Eu já tinha pego um ódio mortal pelo time do Guarani e aquela camisa verde e o Brinco de Ouro da Princesa e a cidade de Campinas e tudo nela contido, o ódio bobo e puro de uma criança. E foi assim, enquanto eu pensava os pensamentos mais negros da minha curta vida até então, que o São Paulo começou um ataque, um toque de bola, e uma luz se acendeu em mim. Uma esperança de que o meu longo sofrimento iria acabar. Careca marcou o gol de empate e eu me desfiz em gritos, em riso, saí correndo pela casa. Só quando voltei me dei conta de que o gol do Guarani havia ocorrido há menos de cinco minutos. Meu avô ria como a criança que eu era. Magia pura.

O São Paulo não foi campeão naquele dia. Só o seria três dias depois, numa terça-feira, após uma batalha árdua, um empate em três a três, na qual Careca marcou novamente no finalzinho do jogo, para empatar e mandar a decisão para os pênaltis. Mas o São Paulo já ganhou, naquele sábado, um fiel torcedor.

Eu não espero que você que está lendo o Domínio da Bola desenvolva uma relação de tamanho amor conosco como eu criei com o São Paulo ao longo destes 21 anos de lágrimas e alegria. Mas, da nossa parte, faremos de tudo para que isso aconteça.

por Carlos Eduardo Senna.


About this entry